
O grupo privilegiava o furto de modelos recentes, mas também atuava por encomenda
Foto: Arquivo
Inibidores de GPS e dispositivos de acesso a sistemas eletrónicos de viaturas foram usados por grupo de 25 arguidos, agora acusado de centenas de crimes.
Usavam equipamentos sofisticados para furtar automóveis. Foram dezenas de carros, de média e alta gama, furtados, sobretudo no Norte do país, com especial incidência no Grande Porto, mas também no Minho e Centro do país. Segundo o Ministério Público (MP) do Porto, a senda criminosa dos 25 indivíduos, liderados por um empresário de Famalicão, agora acusados, ter-lhes-á rendido 650 mil euros.
A maioria dos veículos furtados pelos arguidos, quase todos ligados ao comércio automóvel, era desmontada em garagens e armazéns, para serem vendidos às peças.
A investigação, que esteve a cargo da Divisão de Investigação Criminal (DIC) da PSP do Porto, começou em 2021, altura em que a Polícia percebeu uma inusitada participação de furtos de automóveis. Em Vila do Conde, Póvoa, Matosinhos, Maia, Gondomar, Valongo, Gaia, Porto, Paredes, Santo Tirso, Famalicão, Braga, Guimarães, Espinho, Feira, Pombal e Castelo Branco, houve em todas estas zonas queixas de furtos de automóveis.
Localização desativada
E a DIC decidiu juntar num só processo as dezenas de inquéritos. Sobressaía um "padrão": os furtos nunca eram testemunhados, os alarmes dos automóveis roubados nunca soavam e, de todos os furtos, apenas "um ou dois" foi recuperado. Isto permitiu à PSP perceber que os facínoras usariam equipamento sofisticado, nomeadamente emuladores que permitiam aceder e manipular a eletrónica dos carros, e assim, fazê-los funcionar sem alarido de arrombamento e alarmes. Os polícias também suspeitaram da existência de um inibidor de sinais GPS, o que explicava o facto de, embora muitas das viaturas furtadas estivessem equipadas com localizador, nem vítimas nem autoridades conseguiam rastreá-las.
Convictos de estarem face a um grupo de elevada sofisticação, os investigadores colocaram stands, casas de peças, sucateiros e quejandos, localizados no Grande Porto e Minho, debaixo de olho. Até porque muitos destes negócios estavam nas mãos de gente já conhecida da Polícia.
Em finais do ano passado, a PSP, já com prova substancial, partiu para buscas de que resultariam duas dezenas de detenções, a mais importante delas de um empresário de Famalicão - o único que ficou em prisão preventiva - e a quem o MP acusa de ter lucrado "a parte de leão", cerca de 500 mil euros.
Cúmplice nos registos
Na operação, que decorreu em várias etapas, foram detidos os operacionais e respetiva liderança, localizadas e encerradas oficinas e armazéns onde as viaturas eram desmanteladas. Também foi identificada e detida grande parte dos recetadores. Sobressaiu, na rede de cumplicidades, uma funcionária dos registos que, usando a sua função, acedia e fornecia aos larápios a identificação e morada de dezenas de proprietários de automóveis cujas marcas interessavam aos ladrões.
A mulher, de Ponte de Lima, faz parte dos 25 agora acusados, e responderá por 45 crimes de acesso ilegítimo e violação de sigilo.
Sofisticação
Colocavam rastreadores nas viaturas desejadas
Durante as buscas, a PSP apreendeu emuladores, como o "Smart Key Emulator", que lhes permitia abrir as portas, aceder aos dados eletrónicos, reprogramar a viatura de modo a ligar o motor com qualquer outra chave. Muitas vezes a pedido dos recetadores, procurava determinada marca automóvel na via pública e, quando encontravam, colocavam "uma lapa", um rastreador GPS, passando a segui-lo e a esperar pela melhor ocasião para o subtrair. Usavam ainda dispositivos eletrónicos, denominados "Jammers", que inibiam os sinais GPS dos carros, impedindo a sua localização. Mesmo assim, eram cuidadosos. Não fosse o aparelho falhar, permitindo a sua localização, estacionavam o carro na rua, um ou dois dias. Se não aparecia a PSP ou o dono, iam buscá-lo para o desmantelar.
Pormenores
Crimes
Os 25 arguidos vão responder por 266 crimes de furto, qualificado, branqueamento de capitais, falsificação, recetação agravada, burla e acesso ilegítimo.
Alvos
Jaguar, BMW, Volvo, Peugeot, Renault, Kia e Nissan eram os alvos. Todos modelos recentes e de elevado valor comercia.
Líder em preventiva
O maior beneficiário do esquema, Vítor B., está em prisão preventiva. Os restantes estão com medidas de coação que vão das apresentações periódicas ao simples TIR.
