A ideia de que os alicerces se abalam pela densidade do debate sobre o estado da nação é desmentida à primeira troca de galhardetes. Nem a realidade combina, nem tão-pouco se percebe que há adesão à mesma. Num ano de crise instalada entre Belém e São Bento, entrega de imagens públicas de desconforto e avisos à navegação com epitáfios antecipados sobre a morte do artista e dissoluções antecipáveis, não seria de esperar que a oposição ganhasse a luta no Parlamento quando a bipolarização envolve Marcelo. Treze demissões depois, o que o PSD arranca da realidade ainda é uma metáfora de viragem: um empate técnico nas sondagens. A inexpressividade do desgaste que sucessivas comissões de inquérito tiveram na imagem do Governo expressa-se quando se somam intenções de voto. O eleitorado volátil, o que oscila entre os dois blocos centrais, não precisa de ser seduzido, precisa de confiar que a mudança compensa.
Enquanto à Esquerda se vivem momentos de afirmação de novas lideranças, com as dúvidas e ambições que a percepção de tempos novos sempre convoca, à Direita a liderança da IL procura obter conhecimento público, a do PSD reconhecimento geral e a da extrema-direita insistir naquilo que António Costa se refere como a “ilustração da degradação da democracia”. Sendo o líder com pior “score” nas sondagens, André Ventura consegue resistir pela mesma síndroma do eucalipto que António Costa convoca ao centro: o Chega seca toda a Direita que dele se aproxima para criar ilusões governativas e, com isso, resiste à sua própria liderança, aos escândalos sucessivos, ao desaparecimento em Portalegre, onde obteve o seu melhor resultado em legislativas, e à readmissão por força de militantes oposicionistas indevidamente expulsos. Resiste, inclusivamente, à ilegalidade da liderança eleita em Congresso. A força desta extrema-direita é o fiel da balança que não permite a Marcelo equacionar a dissolução. Um indicador plástico e irónico de estabilidade.
P.S.: Num momento tão difícil para tantos músicos na cidade do Porto, é vital assegurar que quem faz música no Stop, artistas e criadores que viveram e projectaram a cidade e a sua Arte num ecossistema tão produtivo, denso e diverso ao longo de décadas, não se extinga. Não há soluções eternas e que ninguém se deixe embalar pelo canto sibilino de quem augura sentenças de morte. O Porto é uma cidade que não desiste nem abandona quem cria e trabalha. A cidade provará isso. Sem fel. Sem medo. Num ecossistema sem interesses particulares que se queiram sobrepor ao futuro de quem faz.
O autor escreve segundo a antiga ortografia

