Para a tribo do sofá que, no Mundo ocidental, e em Portugal, apoia a causa palestiniana, os israelitas executados pelos terroristas do Hamas no Sul de Israel (fossem eles judeus, árabes ou beduínos) ou os reféns levados para Gaza não são bem pessoas, são colonos que expulsaram os palestinianos das suas terras (é igual que se trate de mulheres, velhos ou crianças). Não há, para esses, palavras, emojis ou manifestações de solidariedade. Para a tribo do sofá que apoia os israelitas, as vítimas dos bombardeamentos da aviação em Gaza, as famílias obrigadas a fugir das suas casas apenas para serem bombardeadas mais a Sul, os que não têm abrigo, água ou comida também não são bem pessoas, são danos colaterais de uma guerra inevitável contra o terror (é igual que se trate de mulheres, velhos ou crianças). Não há, para esses, palavras, emojis ou manifestações de solidariedade.
Para os elementos de ambas as tribos, conceitos como humanidade e solidariedade são flexíveis. As atrocidades podem ser justificadas, mesmo que com aparente contragosto, quando cometidas em nome de um bem maior ou para vingar o mal causado pelo inimigo. Para ambas as tribos, a verdade é um conceito fluido. Se os combatentes mais rápidos no gatilho digital já disseram, nas redes sociais, qual é a verdade, é essa que conta. Tudo o que se seguir, incluindo o bom senso e os factos, é propaganda e contrainformação. A partir do sofá têm mais certezas do que os infelizes a quem calhou sofrer na pele os efeitos do terrorismo e da guerra. Na verdade, para as tribos do sofá até o sofrimento dos seus é uma abstração. E pode ser usado como uma vantagem. No fundo, cada vida que se perde é um argumento que se ganha na batalha pela verdade.
Como aqui escrevi na semana passada, a propósito da barbárie terrorista (aplica-se igualmente aos bombardeamentos), quem usa argumentos próximos do “olho por olho, dente por dente”, quem se posiciona como membro indefetível de uma das tribos (no conforto do sofá ou das nossas ruas), cheio de certezas, desumanizando o outro, só pode ser descrito de três formas: ou é um bárbaro, ou é um fanático, ou é um ignorante (há quem acumule). Infelizmente, e à medida que a violência se acentua, percebe-se que são cada vez mais.

