Após a rejeição da moção de censura, a segunda em semanas, a hipótese do Governo descartar a sua moção de confiança (aquela que Montenegro sempre quis e que, de resto, já fora colocada e retirada de cima da mesa em poucas horas) seria mais do que evidente caso entendesse esta estabilidade política como um valor maior. A grande questão é que esta estabilidade política não serve ao PSD. Para Luís Montenegro, as dificuldades desta magistratura parlamentar são um suplício, uma espécie de contragovernação ou governo-sombra que teria de suportar até ao cutelo do próximo Orçamento do Estado ou de um qualquer solavanco seguinte. Ora, um solavanco chegou pela própria mão e Montenegro entende que é altura de avançar para a vitimização, esvaziar um pouco a extrema-direita e estabelecer também com a IL, em pose de estado, uma governação à Direita. A votação dos liberais a favor da moção de confiança do PSD é bom indício. Entre 11 ou 18, Maio maduro Maio, quem te pintou?
As notas para a gestão da crise que Leitão Amaro inadvertidamente mostrou ao tapar a cara durante o debate da moção de censura enquanto conversava com Montenegro, chumbada com as abstenções do PS e do CH, são claras quanto ao plano traçado para a estratégia de comunicação do Executivo nos próximos dias. Mas apontar baterias ao PS pela responsabilidade da crise será bastante forçado e dificilmente colherá. Explicar a dimensão da empresa de Montenegro como um pináculo de cuidado no tratamento da causa pública e na gestão das incompatibilidades é esquecer a natureza dos seus clientes, da sua estrutura familiar e da própria morada ou telefone. Dificilmente poderá haver mais explicações para dar e cada adenda só cavará, ainda mais, o inusitado contexto em que o primeiro-ministro se envolveu. Ao não aproveitar a boleia da moção de censura do PCP para se escusar de apresentar a moção de confiança, Montenegro percebe, porventura antes de todos os outros, que é gigante a probabilidade das eleições correrem muito melhor do que uma comissão parlamentar de inquérito que não o deixe respirar durante meses.
A questão da legalidade não é um pormenor. É evidente que Montenegro terá tanta mais defesa quanto se tente explicar, se bem que estejam criadas duas ideias. A primeira, é que ninguém válido se aproximará da vida política nos próximos tempos, senão quem possa prescindir de tudo na vida, seja pela baixa remuneração da maioria da classe política, seja pelas incompatibilidades cerradas. O tempo, como se vê pela bancada do CH, será dos medíocres. Outra, é que haverá a tentação do voto popular passar uma esponja em casos onde a legalidade seja duvidosa. Esta última, igualmente perigosa, também só atrairá mediocridade.
O autor escreve segundo a antiga ortografia

