A relação da Igreja Católica com o humor é por vezes tensa. No passado, mesmo em Portugal, motivou condenações de peças humorísticas em que alguns se sentiram maltratados e até insultados nas suas convicções religiosas. Levaram, por vezes, demasiado a sério o que não deveriam ter valorizado desse modo.
Foi por isso surpreendente ver o Papa Francisco convocar ao Vaticano, na semana passada, mais de uma centena de cómicos. Não só os recebeu, como se atreveu a dizer-lhes que, quando fazem sorrir alguém, fazem “sorrir Deus”. E ainda que se pode rir com Deus, da mesma forma que se pode “brincar e gracejar com as pessoas que amamos”. O Papa, no final da audiência e de improviso, disse-lhes que “é mais fácil ser trágico do que cómico”.
Dizer que Deus ri, para o Papa, “não é uma heresia”. O pe. James Martin, um jesuíta norte-americano, no livro “Deus ri” vai mais longe na provocação: diz que “imaginar Jesus sem sentido de humor pode andar próximo da heresia”. Na verdade, se acreditamos que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, como se encarregaram de definir os concílios dos primeiros séculos do Cristianismo, então ele tem de ter sentido de humor, pois esta é uma característica - e uma qualidade - do ser humano.
Apesar de os Evangelhos nunca o referirem explicitamente, para quem privilegiava o convívio à mesa com os seus discípulos, Jesus teria de possuir bom sentido de humor. Registam os Evangelhos a alegria que sentiam os que se encontram com ele, bem como os diversos apelos de Jesus a que se alegrassem. A alegria não pode ser estranha a um texto que se define como “Boa notícia”. É o que significa a palavra Evangelho em grego.
Terá sido reconfortante para os humoristas verem o Papa reconhecer a sua arte de fazer rir. Logo eles, tantas vezes injustamente atacados pelas religiões.

