Contradições e lapsos de memória marcam julgamento de ucraniano que matou russo há 21 anos

Casa onde aconteceu o crime, em Santiago, Viseu
Foto: Mariana Rebelo Silva/JN
A segunda sessão de julgamento de Sergiy Uvariov, o ucraniano acusado de matar um russo, há 21 anos, em Viseu, ficou marcada por contradições e lapsos de memória das testemunhas ouvidas.
A mãe da vítima mortal, Illiutchenko, descrito no processo como o elo de ligação entre máfias de imigração ilegal, chegou a ser confrontada com as declarações que prestou perante as autoridades policiais na noite a seguir aos factos.
O tribunal admitiu que, mais de 20 anos depois dos factos e atendendo ao choque sofrido pela morte do filho, que obrigou a tratamento psiquiátrico, era normal a mulher ter falhas de memória, mas não a ponto de não se lembrar de praticamente nada do que disse naquele dia.
Nadejda Grichina disse, esta terça-feira, que o filho não tinha amigos, por isso não conhecia ninguém com quem ele se relacionasse diariamente. A mãe da vítima contou ainda que o filho trabalhava nas obras, não tinha carta de condução e permanecia em Portugal em situação ilegal.
Hoje, foi ainda ouvido o agente da PSP, atualmente reformado, que, naquele dia, estava de serviço de carro patrulha.Francisco Castro terá sido a primeira pessoa a chegar ao local do crime, mas também ele foi confrontado com o auto de notícia por si elaborado e assinado no dia do crime.
A sessou ficou ainda marcada pelo depoimento de um inspetor da Polícia Judiciária (PJ) que, à data dos factos, estava em formação. Armando Santos contou que “herdou” o processo em 2006, quando apenas “faltava a localização do suspeito”.
Em tribunal, o inspetor explicou que “a suspeita, desde o início, era a de que a confrontação teria tido origem no incumprimento de acordos estabelecidos” e que eram “comuns estes circuitos na altura, em Portugal”. Na sequência do depoimento do inspetor da PJ, o Tribunal determinou a notificação de outros dois inspetores para serem ouvidos. Na altura, acompanharam o inspetor que liderou a investigação, mas que, entretanto, já faleceu.
A sessão ficou ainda marcada pelo requerimento da defesa da leitura das declarações para memória futura (que não estão gravadas, mas sim escritas). O Tribunal rejeitou.
Ucraniano descrito como “educado” e “respeitador”
A última testemunha a ser ouvida foi a técnica de reeducação do Estabelecimento Prisional de Viseu. Ana Maria Matias descreveu Sergiy Uvarov como uma pessoa “de bom trato, muito educada e correta”. “É de uma educação extrema. Na interação com os seus pares, respeita os outros e os outros respeitam-no”, afirmou.
Sergiy não se entregou com medo
O arguido continuou a ser ouvido na manhã desta terça-feira, no Tribunal de Viseu, e contou que só não se entregou às autoridades, com medo de vingança “dos amigos de Illiutchenko”.
Sergiy Uvarov garantiu que só teve a certeza de que o russo tinha morrido 20 anos depois, quando foi detido na fronteira da Polónia, ao abrigo de um mandado de detenção europeu, ao tentar fugir da guerra na Ucrânia para se ir encontrar com a mulher e as duas filhas, em Itália.
Há uma semana...
Na primeira sessão de julgamento, Sergiy Uvarov confessou o crime, mas negou a intenção de matar, explicando que atingiu o russo Iliutchenko enquanto o empurrava para o tentar afastar.
O depoimento do arguido ficou marcado por emoção, lágrimas, arrependimento e um pedido de desculpa à família da vítima.
Sergiy Uvarov está acusado de três crimes de homicídio, dois dos quais na forma tentada.
