
Estado de emergência foi prolongado até quinta-feira
Fotos: Maria João Gala
Governo prolongou estado de emergência, face à destruição causada pelos incêndios esta segunda-feira e tendo em conta o agravamento das condições meteorológicas, com a persistência de ventos fortes e tempo seco, até quarta-feira, que aumentam o risco de incêndio. Duas pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas.
Segunda-feira de cinzas, de fogo e morte. Arderam casas, foram evacuadas escolas e lares de idosos e mais duas pessoas perderam a vida devido aos fogos. O primeiro-ministro cancelou a agenda e pediu ajuda à União Europeia, que respondeu afirmativamente, com o envio de meios. De Espanha, além dos ventos que empurram as chamas, chegou ajuda aérea, com dois aviões a juntarem-se ao dispositivo de combate que mobilizou mais de cinco mil operacionais e quase mil meios, terrestres e aéreos, durante o dia. Que foi quente, como será também o de amanhã e o de quarta-feira, com ventos igualmente fortes, motivando o prolongamento do estado de emergência até às 23.59 horas de quinta-feira. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê até quarta-feira um agravamento significativo do perigo de incêndio rural no continente, devido a condições meteorológicas adversas.
A morte voltou com o fogo. Após um ano de 2023 sem vítimas mortais, o primeiro em tantos seguidos de vidas perdidas para as labaredas, duas pessoas morreram e centenas ficaram feridas em consequência dos incêndios que afetaram particularmente os concelhos de Oliveira de Azeméis, Sever do Vouga, Albergaria-a-velha, Baião e Gondomar. Os vários fogos que cobriram Portugal de lume e cinzas partiram o país em dois, com o corte da principal e mais antiga autoestrada do país, a A1, fechada num troço de mais de 100 quilómetros, entre Coimbra e Grijó, desviando milhares de condutores e deixando centenas de passageiros sem autocarro – Flixbus cancelou 92 viagens e 37 foram afetadas e a Rede Expressos suspendeu todas as viagens de longo curso. Os comboios pararam durante quase duas horas na linha que liga as duas principais cidades do país.
Nuvem de fumo, sinal de vário fogos
Vista do Porto, a nuvem de fumo que cobriu Vila Nova de Gaia era um indicador de que para sul do Douro estava "o inferno", descrito por uma moradora de Macinhata da Seixa, em Oliveira de Azeméis, após uma segunda-feira a tentar ver se havia sol para lá dos grossos novelos de fumo que cobriam a aldeia. “Vivemos uma situação de terror”, contou ao JN Ana Paula Tavares, secretária da União de Freguesias de Oliveira de Azeméis, Santiago de Riba-Ul, Ul, Macinhata da Seixa e Madail.
Um terror que cobriu outros territórios do centro e norte de Portugal, mas que também estava bem perto da Invicta. Em Gondomar, um incêndio consumiu três casas, cortou a A43 e a estrada D. Miguel, alarmou populações e motivou a evacuação de duas escolas e um centro de idosos, por precaução. O fumo enrolava-se também em Baião, concelho da Área Metropolitana do Porto (AMP), que regista a destruição de várias casas e outras estruturas, na sequência de um fogo que deflagrou cerca das 10.30 horas desta segunda-feira mas que andou lesto, tocado a vento forte.
Um dos fogos mais avassaladores começou na União de Freguesias de Pinheiro da Bemposta, Travanca e Palmaz, em Oliveira de Azeméis, no distrito de Aveiro. Deflagrou depois de almoço, no domingo, e continuou voraz, na segunda-feira, a comer mato, florestas e casas.
Duas pessoas morreram em Albergaria-a-Velha, uma carbonizada, outra porque o coração cedeu ao terror “numa zona coberta pelo fumo”, explicou o comandante nacional de Proteção Civil, André Fernandes. A outra vítima mortal, um trabalhador de uma empresa florestal, morreu carbonizado ao tentar chegar a uma máquina de rasto, para atacar o fogo.
Das 205 ocorrências, 44 deflagraram de noite
A Proteção Civil registou 205 ocorrências até às 19.30 horas de segunda-feira, com 44 ignições noturnas. “Isto não pode ser”, disse André Fernandes. Do total de incêndios do dia, 188 foram dominados nos primeiros 90 minutos, acrescentou o comandante nacional da Proteção Civil, num balanço às 20 horas de hoje, quando estavam 59 fogos em curso. Destes, 19 foram considerados como ocorrências significativas e envolveram 2805 operacionais, 837 meios terrestres e 30 meios aéreos durante o dia, entre os quais dois aviões Canadair enviados por Espanha, ao abrigo do Mecanismo Europeu de Proteção Civil, que atuaram na zona de Sever do Vouga, entre as 16.32 e as 19.05 horas.
Portugal aceitou as ofertas de quatro parelhas de aviões de combates a fogos, no âmbito do pedido de ajuda feito à União Europeia. Além dos Canadair de Espanha, França e Itália vão enviar dois aviões cada, que devem começar a trabalhar durante a tarde de terça-feira, e da Grécia chega ajuda amanhã à tarde, para começar a operar na quarta-feira de manhã.
Ao início da noite desta segunda-feira, a preocupação da Proteção Civil era com “o complexo de incêndios entre a Aérea Metropolitana do Porto e a região de Aveiro”, disse André Fernandes, citando os fogos de Sever do Vouga, Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azeméis, que “têm um área estimada atingida de 10 mil hectares e um potencial estimado de 30 mil hectares que podem arder”. Estes incêndios mobilizavam, às 19.30 horas, 1262 operacionais e 437 meios. “A prioridade é salvaguardar a vida das pessoas e dos bens”, acrescentou.
Apesar do esforço dos bombeiros e das populações, as chamas, empurradas por ventos fortes de leste, danificaram dezenas de casas e de estruturas, agrícolas ou industriais: Em Albergaria-a-Velha, pelo menos 21 habitações foram afetadas pelo fogo, que causou ainda estragos num armazém da cadeia de supermercados Continente; em Sever do Vouga há registo de uma habitação, um anexo agrícola e uma pecuária atingidas pelas chamas; em Aveiro, duas habitações também afetadas; três destruídas em Cabeceiras de Basto, além de diversas habitações e indústrias afetadas, ainda em apuramento, em Baião; e também três casas em Gondomar.
Três autoestradas cortadas
Segundo o balanço da Proteção Civil, às 20.30 horas estavam ainda cortadas três autoestradas: A1, entre Coimbra Norte e Grijó, Vila Nova de Gaia; na A25, entre Angeja, Aveiro, e Reigoso, Viseu; A13, na região de Coimbra, como as outras, também nos dois sentidos. Durante o dia, a A29, A32, Vila Nova de Gaia a Oliveira de Azeméis, e A42 foram outras autoestradas afetadas pelos fogos, que motivaram também cortes no IC12, em Nelas, e em várias estradas nacionais, como: EN231 e EN329, em Nelas e Penalva do Castelo; EN 231, entre Nelas e Seia, em ambos os sentidos, assim como a EN 329, que liga Penalva do Castelo a Sátão; EN16 entre Cacia e Albergaria-a-Velha; IC2, entre Albergaria e Serém de Baixo e também entre Salreu e Águeda; EN238, na zona de Sever do Vouga e na EN109 na zona do distrito de Aveiro, entre Estarreja e Aveiro.
Os incêndios causaram constrangimentos na ferrovia, que, às 20 horas, segundo a Proteção Civil Nacional estava normalizada. A Linha do Norte, a ligação entre Porto e Lisboa, esteve parada durante mais de 90 minutos, entre as 10.57 e as 12.35 horas, devido às chamas na zona de Cacia, Aveiro. Foram afetados sete comboios de longo curso, Intercidades e Alfa Pendular, dois regionais e três urbanos, segundo fonte da CP.
A Linha do Vouga teve a circulação interrompida, às 8.40 horas, no troço entre Sernade e Macinhata; o mesmo serviço esteve cortado entre as 12.20 e as 17.25 horas no ramal entre Espinho/Vouga e Paços de Brandão, tendo afetado seis comboios.
Transporte de passageiros afetado
Flixbus confirmou ao JN que foram canceladas 92 viagens e outras 37 foram afetadas. "Tivemos vários autocarros retidos na estrada em áreas de fogo, mas neste momento não temos nenhuma situação preocupante. Os autocarros que circulavam nas áreas mais atingidas conseguiram viajar em segurança até áreas de serviço, e outros, guiados pela polícia, conseguiram regressar e parquear no Terminal de Aveiro", disse fonte oficial da empresa. A transportadora garantiu ainda que os passageiros afetados pelos cancelamentos podem optar por reagendar a viagem ou pedir o reembolso da viagem.
A Rede Expressos suspendeu todas as viagens de longo curso nas zonas mais afetadas pelos incêndios. Fonte oficial da empresa explicou ao JN que o serviço Lisboa-Porto só funciona até Coimbra. A rota Porto-Lisboa também foi suspensa, só iniciando a viagem a partir de Coimbra. Além disso, a viagem Lisboa-Bragança está suspensa, mas Lisboa-Bragança funciona via Viseu.
As viagens da rede de autocarros Unir, que serve a Área Metropolitana do Porto (AMP), estão a ser "fortemente condicionadas" na Autoestrada do Douro Litoral (A32) devido aos incêndios que lavram na região Norte.
Fonte da AMP avançou ainda que, devido aos incêndios, foi suspensa a linha 1204, que opera dentro no concelho de Oliveira de Azeméis e passa na União de Freguesias de Pinheiro da Bemposta, Travanca e Palmaz.
O corte de várias vias afetou, também, a circulação de mercadorias e bens, com vários camiões estacionados à força.

