
Atriz e realizadora Reem Kherici fala-nos de “Cães e Gatos”, já nos cinemas
Foto: D.R.
Um gato e um cão escapam das suas jaulas no aeroporto e os seus donos têm de trabalhar em conjunto para recuperar os seus animais de estimação. Por detrás desta ideia simples encontra-se uma comédia francesa onde atores de carne e osso convivem com um cão e um gato gerados digitalmente.
Reem Kherici, além de atriz principal, é também argumentista e realizadora, e esteve a conversar com o JN.
Não é a primeira vez que realiza um filme, mas nunca tinha feito um com personagens digitais.
Foi um grande desafio. Mas era um sonho meu, que tinha desde muito pequena, fazer os animais falar. Nessa altura não sabia que um dia ia ser realizadora. E quando vi que os filmes americanos eram capazes de o fazer, pedi aos meus produtores para escrever uma história que colocasse em cena o meu próprio gato. A Diva é o meu próprio gato. Mas disseram-me logo que não!
Como é que os convenceu?
Insisti e insisti, e finalmente escrevi um guião que estivesse à altura, que pudesse dizer alguma coisa a crianças e a adultos. E que tivesse uma moral, era importante. Mas tecnicamente foi um trabalho muito longo. Durou sete anos a fazer, mas não me arrependo de nada, porque consegui fazer qualquer coisa de irreal. É muito importante para a minha carreira de realizadora ter feito qualquer coisa que sai das normas.
Sempre teve gatos?
Sempre tive gatos, sim. E sempre tive um grande afeto pelos animais. Falo-lhe com as minhas palavras e eles respondem-me com as deles. E eu compreendo-os. Quando temos um animal, conseguimos compreendê-lo. Dar-lhes a palavra era uma coisa que tinha vontade de fazer.
A personalidade da gata do filme corresponde à da sua gata?
Cada um tem a sua personalidade, e isso é muito inspirador. Eu tive vários animais, mas todos com a sua personalidade. E a Diva tem um caráter muito próprio, mesmo de heroína de filme. É uma Maine Coon, muito grande, muito bela e um pouco pretensiosa. E muito desajeitada, sempre a bater em todo o lado, como é muito grande não tem nenhuma ligeireza. Foi ela a maior inspiração para o meu filme.
Cão e gato, normalmente é a guerra.
E começa pela guerra, é verdade, quando se encontram. Achei que havia uma boa evolução das personalidades deles a criar. Começamos por não gostar deles, mas vamos aprendendo a gostar. É essa verdadeiramente a moral do filme. Não devemos julgar logo os outros e aprendemos quase sempre muito com aqueles que são diferentes de nós.
E como é que dirigiu os atores, que tinham de representar sem ter o cão e o gato ao pé?
Tínhamos uns peluches do mesmo tamanho dos animais que vemos no filme e que faziam às vezes deles. E ia-lhes mostrando o storyboard animado que tínhamos feito, cena a cena. Era como um desenho animado, onde eles se viam, como personagens animadas, ao lado do cão e do gato, e assim percebiam exatamente o que tinham de fazer.
Porquê a comédia, na sua obra, quer como atriz, quer como realizadora? Toda a gente diz que é o género mais difícil de fazer.
É verdade que é o mais difícil de fazer. Mas eu sou uma pessoa muito jovial. O género assemelha-se muito a mim. E penso que com a comédia podemos fazer passar muitas mensagens. Mesmo sérias, como há no filme. Eu quis divertir as pessoas, oferecer-lhes um momento de ligeireza, e a comédia também permite atingir um público mais vasto.
Essa jovialidade, já vem de quando era criança?
Pelo contrário, não me sentia bem na minha pele, era muito introvertida. A comédia e a imaginação já eram uma escapatória. Foi por isso que comecei a escrever. Quando era pequena não era muito feliz e partia da minha imaginação para imaginar dias melhores.
Este filme, em particular, dirige-se mais às crianças?
Dirige-se a todas as pessoas que ainda têm uma alma de criança. Aos pais, aos avós, aos que adoram animais. Tenho mostrado o filme pelo país todo, tenho visto famílias, mas também casais que vêm ver o filme para se divertir. Vêm também pelo lado da comédia romântica, da relação do ator principal com a personagem que eu interpreto. No fundo, os animais são as crianças e os donos são os adultos. É um filme para todos os públicos.
Como é que foram as primeiras reações ao filme?
Têm sido uma prenda para mim. A começar pelas crianças, que não perceberam que o cão e o gato não são a sério. Estão sempre a perguntar-me onde é que eles estão. Isso é tão bonito.
A sua carreira é sobretudo de atriz, porque decidiu voltar a fazer um filme como realizadora?
Hoje em dia considero que o meu trabalho principal, quotidiano, é de argumentista e realizadora. É um trabalho que leva muito tempo a fazer. Pelo meio, há propostas de filmes como atriz, que aceito ou não. Durante este período em que fiz “Cães e Gatos” não aceitei nada, porque queria concentrar-me neste filme, muito complicado de fazer. Com todos os efeitos especiais, a pós-produção foi muito longa.
Como é que manteve a coragem e a vontade de fazer o filme ao longo de sete anos?
Foi muito duro manter a fé no projeto. A minha personalidade é de nunca desistir. Quanto mais me dizem não, mais tenho vontade de ir à procura do sim. De provar que consigo. Hoje sou mãe e posso dizer ao meu filho que se ele quiser uma coisa, trabalhar muito e nunca desistir do sonho dele, pode alcançá-lo. Toda a gente me disse: “Reem, não é possível fazer um filme assim em França”.
Mesmo os produtores?
Os produtores são os mesmos dos meus dois filmes anteriores e que me adoram, como se fossem o meu pai e a minha mãe. Disseram-me que ia ser muito longo, que não tinham a certeza de encontrar os meios financeiros para um filme como nunca tinha sido feito em França. Mas a minha resposta foi que há sempre uma primeira vez!
O que teve de fazer na prática, para avançar?
Aceitei não ser paga durante cinco anos, porque não tinham a certeza que o filme viesse a ser feito e não queriam perder dinheiro. Mas eu tinha na cabeça o que queria. Que melhor casal num filme para crianças que um cão e um gato? São os dois antagonistas mais conhecidos desde o início dos tempos.
O facto de ser uma mulher não tornou ainda mais difícil encontrar financiamento para o filme?
Sinceramente, penso que seria a mesma coisa se fosse um homem. O grande problema é que nunca se tinha feito um filme assim. O que era preciso era alguém com paixão pelo que estava a fazer. Dei sete anos da minha vida a este filme.
Finalmente, é um filme que ultrapassa as fronteiras da França.
É o que dizia aos meus produtores. É um filme com um tema universal e para públicos de todo o mundo. Falamos de diferenças sociais, de diferenças de raças. É um tema que interessa a toda a gente. Não me comparo a eles, mas os filmes da minha infância foram as animações da Disney, que têm uma linguagem universal. E não percebia porque não conseguíamos fazer algo assim.
