A Meo (empresa de telecomunicações) tem uma nova campanha publicitária que se chama “o incentivo certo”. Parte da premissa de que a natalidade do país é uma das mais baixas da Europa e que faltam precisamente nove meses para começar o Campeonato Europeu de Futebol. Vai daí, como a licença parental mínima (leia-se a que normalmente cabe aos pais) é de um mês, calharia mesmo bem estar em casa na altura do euro e ainda ganhar Sport TV de borla. Sendo esse o tal grande incentivo que promete dar um boost na natalidade: ficar no sofá, entretido em frente à televisão, gritando “golo!” com um recém-nascido em casa.
Ora, só uma sala cheia de homens publicitários (muito privilegiados) pode ter parido esta cadeia de raciocínio. É que a distância entre o brainstorming que deu origem a esta ideia peregrina e a realidade de uma licença de maternidade é gigante. E digo “de maternidade” e não “licença parental” de propósito, porque quem ainda acha que o puerpério é uma espécie de férias pagas não pode ter acompanhado de perto, na trincheira, uma mãe em recuperação pós-parto, com as hormonas em guerra, privação do sono, a gerir as primeiras semanas de amamentação e toda a logística que cuidar de um recém-nascido implica.
Já para não mencionar que esta campanha chega na semana em que as notícias sobre a inexistência de vagas nas creches - supostamente gratuitas, segundo a promessa do Governo - faz manchete em todas as capas de jornal. E neste mesmo país em que as creches são caras e insuficientes, em que engravidar e perder o emprego é ilegal mas muito comum, em que nem urgências obstétricas temos como garantidas, em que a precariedade no trabalho impede qualquer esperança de estabilidade no futuro, em que pagar por uma casa é cada vez mais difícil e em que ter mês ao fim do dinheiro é só para uma minoria, uma campanha como esta chega a ser de mau gosto. O incentivo certo seria ter condições de vida dignas para sentir segurança e confiança no futuro.
Enquanto as desigualdades de classe, desde logo, mas sobretudo de género forem tão gritantes (como para abrir um abismo entre um homem publicitário e a realidade quotidiana das mães portuguesas), a natalidade continuará a ser minguante. Enquanto não tivermos licenças parentais iguais para ambos os progenitores, não vamos ter igualdade (competitiva) no mercado de trabalho e faltará sempre noção. Noção do que passam as mães, sozinhas em casa, totalmente invisibilizadas, a cuidar dos bebés, enquanto o Mundo continua impávido, contando com as costas largas do amor incondicional para compensá-las pelas jornadas de trabalho reprodutivo e doméstico de 168 horas semanais, sem folgas, num país sem futuro.

