Um grupo de manifestantes invadiu o lançamento do livro infantil “O meu bairro”, de Lúcia Vicente, impedindo que o evento decorresse com normalidade e cerceando a liberdade de quem estava presente para ouvir falar sobre a publicação e celebrar a edição. No meio de uma gritaria intimidatória, os invasores atiravam impropérios contra aquilo que teimam em chamar de “ideologia de género”, exigindo que “deixassem as crianças em paz”.
Ao que parece, antes do lançamento do livro já tinha havido uma campanha de comentários nas redes sociais contra a edição do mesmo, sendo que agora, após as notícias do incidente, está engrossada a polémica e mais vozes indignadas se juntam a favor e contra o conteúdo da obra e o direito (e até a importância) de publicá-lo.
Trata-se, de facto, de combate ideológico. De um lado a extrema-direita e o conservadorismo obscurantista, de quem confunde educação para a cidadania e para a inclusão com doutrinação das crianças, e educação sexual com “sexualização” infantil, enquanto clama por “liberdade de expressão” para o seu discurso de ódio e intimidação.
Do outro, pessoas comprometidas com a informação baseada em evidências científicas, preocupadas com a inclusão e com uma educação plural, que prepare as crianças para a vida numa sociedade democrática.
Dizer às crianças que podem ser quem são, em liberdade, e que devem aceitar os outros como são, sem preconceitos, é permitir que cresçam sem condicionamentos opressivos, sem se sentirem deslocadas ou imperfeitas, sem um olhar de julgamento sobre si e sobre os outros. É dizer que as nossas características físicas, étnicas e sexuais não devem ser motivo para uma hierarquização e que aquilo que nos define em termos de género ou identidade está muito mais em nós (e nos nossos processos de descoberta) do que em critérios impostos por terceiros. Dizer às crianças que não há nada de errado nelas é libertador, e não se percebe como pode ser considerado um erro.
Não perceber que falar de sexualidade e de educação sexual não é sexualizar as crianças e os adolescentes, mas antes dar informação (adequada a cada idade) sobre literacia do corpo, construções sociais de género, identidades, inclusão, saúde e igualdade e que, inclusivamente, isso pode ser preventivo de casos de bullying, abuso sexual ou outras formas de violência, é querer manter o obscurantismo que perpetua a desinformação e o preconceito. Sendo que o mais perverso é que a esmagadora maioria das pessoas que se prestam a manifestar contra um livro infantil (só por ter linguagem inclusiva e falar sobre o direito a ser quem somos) não demonstra a mesma disponibilidade e veemência para dizer “deixem as crianças em paz” quando vêm à tona milhares de casos de pedofilia na Igreja.

