O advogado de Leonor Cipriano entregou, esta sexta-feira, ao Ministério Público, uma confissão assinada por Leonor Cipriano, em que esta relata as circunstãncias em que a sua filha, Joana, de oito anos, foi supostamente assassinada pelo tio, em 2004.
Segundo a confissão, Leonor Cipriano e o irmão, João, combinaram vender Joana a um casal que não podia ter filhos. O prometido dinheiro não foi entregue. A criança percebeu o que se passava e protestou. O tio matou-a à estalada e enterrou o corpo "lá para cima nos montes da figueira" (Portimão), em sítio que não precisou e que remeteu para o seu irmão.
O documento, escrito pelo advogado, Marcos Aragão Correia, e assinado por Leonor, foi ontem entregue ao Ministério Público de Faro, horas antes do início da oitava sessão do julgamento dos cinco investigadores da Polícia Judiciária (PJ). São oito páginas de confissão, redigidas anteontem, no Estabelecimento Prisional de Odemira, onde Leonor cumpre os 16 anos de prisão a que foi condenada pelo homicídio e ocultação do cadáver da filha em co-autoria com o irmão.
Marcos Aragão garante que escreveu "exactamente" o que a reclusa lhe ditou. "Durante a visita senti que ela tinha alguma coisa para me contar e pressionei-a. Foi então que desatou a chorar e acabou por confessar o que realmente aconteceu", disse ontem, depois de entregar aos jornalistas uma cópia do manuscrito.
"Ela mal sabe escrever, mas leu tudo, concordou e assinou", disse, para justificar o facto de ter sido ele a redigir o documento. Decidiu entregar as declarações porque quer que "o corpo seja encontrado para que a criança possa finalmente ter um funeral digno" e ainda "que seja investigado este casal que é referido e que pode ter feito o mesmo a outra criança", numa clara alusão ao desaparecimento de Madeleine McCann.
Esta nova versão surpreendeu Leandro Silva, ex-companheiro de Leonor. "Nunca tinha ouvido esta história. É a primeira vez", revelou, ao JN. Disse ainda que só ontem é que Aragão Correia lhe contou o que aconteceu. Ambos estiveram no Ministério Público de Faro, onde Leandro foi ouvido no âmbito da queixa que apresentou contra Gonçalo Amaral por agressões que diz também ter sido alvo na PJ Faro.
O que se passou na sala de audiências onde decorre o julgamento dos inspectores da PJ no alegado caso de tortura de Leonor Ciprino acabou por ser relegado para segundo plano. A sessão serviu apenas para evitar interrupção da produção de prova o que implicaria anulação.
O juiz leu o depoimento de Marques Vidal, juiz-conselheiro e antigo director-nacional da PJ. Testemunha abonatória, não poupou nos elogios aos arguidos, que classificou de "sérios", "empenhados" e de "alto nível". Na próxima sessão vai ser ouvida a directora da cadeia de Odemira, Ana Calado, a quem a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais instaurou um processo.
Na origem do inquérito estiveram declarações de António Maia. O ex-chefe dos guardas prisionais acusou a responsável de ter sugerido a alteração de uma informação de serviço relativa ao estado em que Leonor se encontrava quando regressou à cadeia depois do interrogatório na PJ.
