Há autarquias a adquirir testes serológicos, que apenas avaliam a quantidade de anticorpos existentes e que, segundo especialistas, não detetam a presença do novo coronavírus.
Muitas câmaras municipais têm vindo a anunciar a compra, a laboratórios privados, de testes de despistagem à Covid-19, que estão a ser utilizados em lares de idosos, bombeiros e forças policiais, entre outros grupos da população. No entanto, parte desses testes, segundo especialistas ouvidos pelo JN, não servem para despiste da doença, pois não detetam a presença do vírus, mas apenas de anticorpos. São, por isso, ineficazes nesta fase da pandemia, segundo os especialistas. O apelo aos autarcas para não adquirirem esse tipo de testes já foi feito, até pelo próprio primeiro-ministro, mas não foi ouvido.
"Numa reunião que tivemos, com os presidentes das comunidades intermunicipais da Região Centro, uma das coisas que o primeiro-ministro mais nos pediu foi para não comprar esses testes serológicos [ao sangue], porque nesta fase não servem de nada", revelou, ao JN, Ribau Esteves, presidente da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro.
"Os testes RT-PCR [de zaragatoa] são os que detetam a presença do vírus nas vias aéreas superiores. Os serológicos detetam anticorpos, que podem demorar cinco a sete dias a ser desenvolvidos. Nos PCR, nesse período, já acusa positivo", explicou Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos para a Covid-19. "Percebo a bondade das câmaras em ser parte da solução, mas não optaram por uma solução útil. Esses testes são ineficazes nesta fase, até porque dão uma falsa sensação de segurança. Sê-lo-ão, depois, para testar a imunidade", adianta.
A diretora-geral da Saúde já anunciou que Portugal "vai fazer testes serológicos, para saber qual a proporção da população que adquiriu imunidade a este vírus". "Entre a data da infeção e a data em que o nosso corpo começa a produzir anticorpos há um tempo a esperar", frisa Graça Freitas.
Não há testes rápidos
Germano de Sousa, responsável por um dos maiores laboratórios de análises do país, também corrobora a ineficácia dos chamados "testes rápidos". "Não há testes rápidos para a Covid-19. Os testes serológicos não podem ser utilizados como diagnóstico. Mesmo que deem positivo, têm que ser confirmados com os testes RT-PCR, que demoram, no mínimo, 24 horas para termos os resultados.
Enquanto um teste serológico pode custar entre 20 e 40 euros, dependendo do tipo, um RT-PCR ronda os cem euros e há escassez no país de material (zaragatoas e reagentes) para os fazer. Isso pode ter sido um fator determinante na escolha de algumas autarquias.
Belmonte, Mealhada e Vieira do Minho foram algumas das câmaras que adquiriram testes serológicos. "Não sei se são eficazes ou não, mas se há incapacidade do país em fazer os testes [RT-PCR], estou a assumir a minha responsabilidade e a fazer o melhor pela população", sustenta António Rocha, presidente da Câmara de Belmonte. "Pelo menos, dão-nos uma ideia da situação", alega António Cardoso, edil de Vieira do Minho.
Testes serológicos
Testes "da gota de sangue", "teste alemão" e outros são serológicos. Através de uma análise ao sangue que deteta a presença de anticorpos , revela se a pessoa esteve em contacto com o vírus. Importante para aferir da imunidade.
Testes RT-PCR
São os utilizados pelo SNS, feitos por zaragatoa que recolhe material nas vias aéreas superiores. Deteta a presença do novo coronavírus, que causa a Covid-19.
Outros métodos
É possível combinar os resultados dos testes serológicos com outros indicadores "como um inquérito minucioso, medição de temperatura e de oximetria, leucograma, doseamento de proteína C-reativa e determinação de anticorpos" para avaliar a possibilidade de a pessoa estar infetada, explicou Carlos Clara, do laboratório Clara Saúde.