Desporto

Vinicius Jr. de novo na mira do racismo aponta o dedo à Liga espanhola

Vinicius Junior acabou expulso nos minutos finais da partida JOSE JORDAN / AFP

Não foi a primeira vez que Vinicius Junior foi alvo de racismo num estádio espanhol. A história repetiu-se no domingo em casa do Valência, com os adeptos a entoarem cânticos racistas contra o avançado brasileiro. São cada vez mais os dedos que se levantam para exigir mão pesada da LaLiga, o campeonato espanhol, para estes casos, enquanto uma onda de apoio se ergue em torno do jogador de 22 anos. O Real Madrid já fez saber que vai apresentar queixa ao Ministério Público espanhol e o Valência vai banir todos os adeptos racistas.

O que poderia ter sido apenas mais um jogo de futebol tornou-se num "verdadeiro calvário" para Vinicius Junior, que teve de ouvir repetidamente a plateia do estádio de Mestalla a chamá-lo de "mono, mono, mono" (macaco em espanhol). À chegada do autocarro do Real Madrid a Valência, o avançado já tinha ouvido de forma percetível cânticos racistas, mas durante o jogo os ataques tomaram outras proporções. O jogo esteve interrompido durante 10 minutos com o jogador de dedo em riste para a bancada para identificar os racistas. A possibilidade de interromper o encontro esteve em cima da mesa, mas o árbitro Ricardo De Burgos Bengoetxea decidiu continuar. Nos descontos, o brasileiro acabou expulso por atingir Hugo Duro, jogador do Valência, que lhe estava a apertar o pescoço, com braço. O Real Madrid saiu derrotado de Valência no domingo e "entregou" o segundo lugar ao Atlético de Madrid, mas o resultado não interessa a ninguém.

O rastilho aceso durante a partida continuou a arder, mas desta vez nas redes sociais. O jogador dos merengues reagiu aos insultos que ouviu por parte dos adeptos e não poupou críticas à liga espanhola. "O prémio que os racistas ganharam foi a minha expulsão. Não é futebol, é a La Liga. Não foi a primeira vez, nem a segunda e nem a terceira. O racismo é o normal na La Liga. A competição acha normal, a Federação também e os adversários incentivam. Lamento muito. O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi hoje é dos racistas (...) Peço desculpa pelos espanhóis que não estão de acordo mas hoje, no Brasil, a Espanha já é conhecida como um país de racistas. Lamentavelmente com tudo o que se passa todas as semanas, não tenho como defender o contrário. Estou de acordo. Mas sou forte e irei até ao fim contra os racistas. Mesmo que longe daqui", escreveu o internacional brasileiro. E rapidamente se ergueram as vozes de apoio dos colegas de profissão, como Karim Benzema, Neymar e Kylian Mbappé, bem como de Lula da Silva e o próprio presidente da FIFA. Também o treinador Carlo Ancelotti demonstrou estar do lado do jogador de 22 anos, não escondendo a fúria no final do jogo: "A LaLiga tem um problema, estes episódios de racismo têm de parar o jogo. É um estádio que insulta um jogador por racismo e o jogo tem de parar e eu digo o mesmo se ganharmos 3-0, não há outra maneira."

"Quero fazer um gesto de solidariedade com Vinicius, um jovem que é sem dúvida o melhor jogador do Real Madrid, e que sofre agressões repetidas. Espero que a FIFA e outras entidades tomem medidas para evitar que o racismo tome conta do futebol", disse Lula da Silva, no domingo, numa mensagem publicada no Twitter. "Solidariedade total com Vinicius. Não há lugar para o racismo no futebol ou na sociedade e a FIFA está ao lado de todos os jogadores que se viram numa situação destas", afirmou Gianni Infantino, em comunicado.

No entanto, num tom diferente, chegou a resposta do presidente de LaLiga. "Já que aqueles que te deveriam explicar as coisas não o fazem em relação ao que a Liga pode fazer em relação a casos de racismo, vamos tentar explicar nós próprios mas não foste a nenhuma das datas que estavam acordadas e que tu mesmo solicitaste. Antes de criticares e injuriares a Liga, é necessário que te informes de forma adequada. Não te deixes manipular e entende quais são as competências de cada um e o trabalho que temos feito juntos", escreveu Javier Tebas Medrano numa publicação no Twitter, apontando responsabilidades ao Comité de Competições da Federação Espanhola de Futebol e a Comissão Estatal contra a Violência, o Racismo, a Xenofobia e a Intolerância no desporto que tratam deste tipo de situações em Espanha.

Javier Tebas Medrano é um conhecido apoiante do partido político de extrema-direita espanhol Vox. O grupo nacionalista quer revogar a lei contra a violência doméstica, uma vez que considera que é injusta com os homens, é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra o aborto. O Vox conseguiu a primeira vitória política significativa nas eleições regionais de 2019, ao eleger 12 deputados na região autónoma de Andaluzia. O líder do partido quer ainda o fim da imigração em Espanha.

"Uma vez mais, em vez de criticar os racistas, o presidente da Liga aparece nas redes sociais para atacar-me. Por mais que fales e finjas não ler, a imagem do teu Campeonato está em causa (...) Quero ações e castigos, uma hashtag não me diz nada", respondeu Vinicius. A troca de mensagens terminou com garantia do presidente de LaLiga que a "Espanha não era racista". "Não podemos permitir que a imagem de uma competição que é acima de tudo um símbolo de união entre os povos, onde mais de 200 jogadores negros em 42 clubes recebem o respeito e o carinho de todos os adeptos todos os dias de jogo, sendo o racismo um caso extremamente específico (9 queixas) que vamos erradicar", sublinhou.

A LaLiga solicitou todas as imagens disponíveis para abrir uma investigação, indicando que "uma vez concluída a investigação, no caso de ser detetado qualquer crime de ódio, a LaLiga tomará as medidas legais adequadas". Entretanto, já foram identificados dois adeptos por insultos racistas. O Valência anunciou, esta segunda-feira, que vai banir para toda a vida os adeptos que proferiram insultos racistas a Vinicius Jr.

A polícia espanhola está também a investigar um possível crime de ódio contra o brasileiro, depois de um boneco com a camisola número 20 ter sido pendurado numa ponte em frente ao campo de treinos do Real Madrid, em janeiro.

O clube madrilenho já fez saber, através de um comunicado emitido esta segunda-feira, que vai apresentar uma queixa no Ministério Público espanhol, a propósito dos insultos racistas de que foi alvo Vinícius Júnior.

Daniela Jogo