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FNAM acusa Governo de "abrir caminho" a investimento privado e "fragilizar" o SNS

FNAM estima que haja um investimento de 1 500 milhões de euros no setor privado Foto: Orlando Almeida/Arquivo

A Federação Nacional dos Médicos (FNAM) alertou nesta terça-feira, em comunicado, para as opções do Governo no âmbito dos cuidados de saúde, que diz estarem a "fragilizar" o SNS, "agravando a perda de médicos, a instabilidade das equipas e a capacidade de resposta assistencial à população". A FNAM dá como exemplo investimentos que grupos privados de saúde anunciaram ao longo deste ano, no valor de 1582 milhões de euros, em zonas do país mais carenciadas, onde o SNS enfrenta maiores dificuldades.

"A FNAM tem vindo a identificar um padrão consistente: os territórios onde o SNS enfrenta maiores dificuldades de funcionamento - marcadas pela falta de médicos, escalas incompletas, encerramento ou limitação de serviços e sobrecarga dos profissionais - coincidem com aqueles onde o setor privado da saúde tem vindo a anunciar investimentos de grande dimensão, sobretudo na abertura de novas unidades", refere o comunicado enviado às redações.

Circunstância que a FNAM diz estar a ocorrer "num contexto em que o SNS continua sem uma estratégia estruturada de planeamento e valorização dos seus recursos humanos", de modo a garantir a qualidade dos cuidados de saúde.

Como exemplo, a FNAM aponta investimentos anunciados ao longo deste ano por grupos privados de saúde como CUF, Lusíadas, Luz e Trofa, que totalizam 1582 milhões de euros, sublinhando que estes "não constituem, por si só, um problema, mas revelam a ausência de uma política pública eficaz de planeamento do sistema de saúde e de valorização do trabalho médico no SNS".

"Isto está tudo ao contrário"

"Para nós, o exemplo mais flagrante é o de Penafiel. O Norte serve meio milhão de utentes, está subdimensionado em termos de infraestruturas, com um rácio de médicos/doentes brutal, e foi ali aberto um hospital de um grupo privado, num investimento de 50 milhões de euros, inaugurado a 25 de outubro", assinala a presidente da FNAM, em declarações ao JN.

Joana Bordalo e Sá acusa ainda o Governo de motivar o recurso aos cuidados privados. "A secretária de Estado da Saúde esteve nessa inauguração, quase que houve um enaltecimento dos cuidados de saúde privados de proximidade. Isto está tudo ao contrário. Nós não temos nenhum problema contra o setor privado. Mas é impossível não haver essa associação, nos sítios mais carenciados é onde eles abrem, é onde o setor privado tem feito investimento. No setor público sabemos que o SNS é subfinanciado e há uma fuga enorme de profissionais, como os médicos", salienta a presidente da FNAM.

Sílvia Gonçalves