Os últimos três vagões de um comboio que viajava de Málaga para Madrid, ao início da noite de domingo, descarrilaram e invadiram a via contígua, pela qual circulava um comboio com destino a Huelva, que também descarrilou e cujos dois primeiros vagões caíram por um aterro de quatro metros. Pelo menos 40 pessoas morreram no acidente, ocorrido no município de Adamuz, em Córdova, e mais de 150 pessoas (41 continuam internadas), incluindo menores. A investigação aponta para uma falha numa junta na via.
Gonzalo Sánchez, de 46 anos, foi um dos primeiros a chegar ao local do acidente. Vive lá perto e, quando soube do sinistro, decidiu ir ajudar. Apesar dos "vagões destruídos" e de ser uma zona "de difícil acesso", segundo descreveu ao "El Mundo", Sánchez resgatou uma dezena de passageiros dos destroços. Levou as vítimas para serem atendidas pelos serviços de saúde e reunidas com os seus familiares. Com a sua moto-quatro, transportou ainda equipas de paramédicos para o local do acidente. O espanhol afirma nunca ter vivido uma situação de emergência semelhante.
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"Pensei que ia morrer", contou ao jornal espanhol Inmaculada, que estava no vagão quatro do comboio com destino a Huelva e testemunhou como, a partir do vagão seguinte, os danos foram muito piores. "De repente, o comboio começou a travar bruscamente. Foi tudo muito forte e alguns assentos foram arrancados", relata a passageira. "Vou demorar a voltar a entrar num comboio", admite, ainda assustada, descrevendo o cenário com "dantesco".
Já Francina Martínez, da Costa Rica, viajava no outro comboio, no vagão sete, que, devido ao impacto, ficou parcialmente virado sobre a via. "Saímos pelas janelas", relata, explicando que um grupo de passageiros partiu o vidro com martelos de emergência para conseguir sair.
O acidente gerou uma grande onda de solidariedade no município de Adamuz. Os habitantes colocaram-se à disposição das autoridades, doaram roupas e cobertores às vítimas para combater as temperaturas negativas e acolheram algumas em casa enquanto estas esperavam por amigos ou familiares que as fossem buscar.
O comboio, da companhia Iryo, com oito vagões, colidiu com um da Renfe, com quatro vagões, 20 segundos após descarrilar, segundo a investigação inicial. Este curto período de tempo impediu que pudessem ser ativados os mecanismos de segurança do sistema. O TGV que seguia para Madrid foi construído em 2022 e a sua última inspeção tinha sido realizada quatro dias antes, a 15 de janeiro. O acidente ocorreu num trecho em linha reta e cujo piso tinha sido renovado em maio. De acordo com Óscar Puente, ministro dos Transportes espanhol, o acidente foi "estranho e difícil de explicar".
Investigação aponta falha em junta na via
Segundo a Reuters, que cita uma fonte ligada à investigação, uma junta partida encontrada no local criava uma folga entre as secções dos carris e os técnicos detetaram desgaste na peça, o que indica que a falha já deveria existir há algum tempo. O elo, segundo a mesma fonte, é fundamental para apurar a causa exata do acidente.
O primeiro-ministro espanhol esteve na manhã desta segunda-feira no local do acidente e garantiu que o Governo divulgaria informações sobre a causa do acidente mal estivessem apuradas. Afirmou também que as vítimas teriam todo o apoio necessário, "durante o tempo que for necessário".
Luís Montenegro escreveu hoje na rede social X que enviou a Pedro Sánchez "toda a solidariedade de Portugal" e disponibilizou o apoio "para o que for necessário". Também o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, expressou pesar ao monarca espanhol, Felipe VI. Vários outros líderes europeus, bem como a presidente da Comissão Europeia, Úrsula Von der Leyen, enviaram também condolências às famílias das vítimas.
O descarrilamento em Adamuz é o acidente ferroviário mais grave em Espanha desde o descarrilamento em Angrois, perto de Santiago de Compostela, que provocou 80 mortos e 145 feridos, a 24 de julho de 2013.