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"Perdi a minha capacidade de falar": Amber Heard sobre os processos com Johnny Depp

Amber Heard fala sobre o impacto das batalhas judiciais com Johnny Depp no documentário "Silenced". Foto: Instagram de Amber Heard

Num raro testemunho público, atriz participa no documentário "Silenced", exibido no Festival de Sundance, onde reflete sobre o impacto pessoal e social das batalhas judiciais com o ex-marido, Johnny Depp. Amber Heard fala do silêncio imposto e do medo de usar a própria voz.

Amber Heard voltou a abordar, de forma rara e contida, o longo conflito judicial com o ex-marido Johnny Depp no documentário "Silenced", apresentado sábado no Festival de Sundance, nos Estados Unidos.

Aos 39 anos, a atriz integra o filme que analisa a utilização das leis de difamação contra sobreviventes de abuso, partilhando as consequências pessoais de anos de exposição mediática e processos em tribunal.

"Não se trata de mim", afirma Heard no documentário, numa conversa com a realizadora Selina Miles. "Perdi a minha capacidade de falar. Não estou aqui para contar a minha história. Não quero contar a minha história. Na verdade, já não quero usar a minha voz. Esse é o problema", diz a atriz, em declarações citadas pela Variety.

O documentário revisita o período que se seguiu ao divórcio de Heard e Depp, marcado por acusações mútuas de abuso físico, emocional e psicológico. A disputa judicial ganhou dimensão internacional e colocou ambos no centro de um debate público intenso sobre violência doméstica, liberdade de expressão e justiça mediática.

Mulheres, poder e silêncio

O documentário foi exibido no Festival de Sundance, um dos mais relevantes eventos internacionais dedicados ao cinema independente, conhecido por dar palco a obras com forte dimensão social, política e de direitos humanos, muitas vezes afastadas dos grandes estúdios de Hollywood.

"Silenced" cruza o testemunho de Heard com o de outras mulheres que enfrentaram sistemas de poder, como a jornalista colombiana Catalina Ruiz-Navarro, na luta pela liberdade de imprensa, e Brittany Higgins, que denunciou abusos no contexto político australiano. "Quando as mulheres falam, sistemas poderosos movem-se para as desacreditar e punir", refere a descrição oficial.

Entre as participantes está também a advogada internacional de direitos humanos Jennifer Robinson, que trabalhou com Heard durante o processo movido por Johnny Depp contra o jornal britânico "The Sun".

A atriz recorda o julgamento, concluído em 2020, em que Depp perdeu a ação depois de o tribunal considerar "substancialmente verdadeiras" as alegações de que o ator teria agredido a então mulher.

"Lembro-me de, no final do julgamento, surgir a ideia de eu falar com a imprensa", recorda, acrescentando: "A Jennifer perguntou-me se eu tinha a certeza. Pensei: "Se me atirarem coisas, isso tornará tudo mais óbvio". Não percebi que podia ficar muito pior para mim, enquanto mulher, por usar a minha voz."

Apesar de afirmar que já não quer estar no centro da narrativa pública, Amber Heard diz encontrar força em quem continua a denunciar situações de abuso. "Dá-me força ver outras pessoas a assumirem esta luta. Mulheres corajosas o suficiente para enfrentar o desequilíbrio de poder", confessa..

A artista associa essa esperança à maternidade, referindo a filha mais velha: "Quando olho para o rosto da minha filha, à medida que cresce e começa a entrar neste mundo, acredito que pode ser melhor."

Amber Heard é mãe de três crianças, os gémeos Ocean e Agnes e a filha Oonagh Paige, e tem mantido uma vida mais reservada desde o fim do processo judicial. O divórcio com Johnny Depp foi pedido em 2016, com a atriz a invocar diferenças irreconciliáveis e a solicitar uma ordem de restrição temporária, alegando violência doméstica. O acordo de divórcio foi alcançado nesse ano.

O conflito reacendeu-se em 2019, quando Depp avançou com um processo por difamação devido a um artigo de opinião escrito pela ex-mulher para o "The Washington Post". O julgamento nos Estados Unidos terminou em 2022, após seis semanas, com o tribunal a considerar Heard responsável por três acusações de difamação, fixando uma indemnização de 10,35 milhões de dólares (cerca de 9,5 milhões de euros). O ator foi, por sua vez, condenado a pagar dois milhões (aproximadamente 1,84 milhões de euros), depois de Heard ter vencido uma das acusações na contra-ação.

Ambos recorreram da decisão, mas acabaram por chegar a um acordo. Amber Heard pagou um milhão de dólares (cerca de 920 mil euros) a Johnny Depp, valor que o ator anunciou que seria doado a várias instituições de solidariedade.

Sara Oliveira