A sentença de 20 anos de prisão para o ex-magnata dos média e fundador do extinto jornal "Apple Daily, Jimmy Lai, provocou fortes reações internacionais nesta segunda-feira. O Reino Unido, a União Europeia (UE) e Taiwan lamentaram a decisão judicial em Hong Kong.
O Governo do Reino Unido, país ao qual Lai possui cidadania, prometeu "intervir mais e sem demora". "Estamos ao lado do povo de Hong Kong", afirmou a secretária britânica dos Negócios Estrangeiros, Yvette Cooper.
A chefe da diplomacia afirmou ainda que Jimmy Lai foi sentenciado por "exercer o seu direito à liberdade de expressão" e que o processo foi "politicamente motivado". "A Lei de Segurança Nacional de Pequim foi imposta em Hong Kong para silenciar críticos da China", sublinhou Cooper, acrescentando que, para o magnata, de 78 anos, esta pena é "equivalente a uma sentença de prisão vitalícia". Disse ainda estar "profundamente preocupada com a saúde" do ativista e apelou à sua libertação para que possa "reunir-se com a sua família".
A governante revelou que o primeiro-ministro britânico abordou diretamente o caso com o presidente chinês, Xi Jinping, durante uma visita oficial recente, abrindo o caminho a um "diálogo mais intenso" entre Londres e Pequim sobre a situação de Lai. O Governo britânico afirmou que continuará a comprometer-se com a proteção da população de Hong Kong e a honrar os compromissos históricos assumidos sob a Declaração Conjunta Sino-Britânica, que define o estatuto da região após a transferência de soberania em 1997.
"UE deplora severa pena"
Bruxelas condenou também a decisão judicial. "A UE deplora a severa pena de prisão de 20 anos imposta ao cidadão britânico e empresário dos média Jimmy Lai pelo Superior Tribunal de Hong Kong, em 9 de fevereiro de 2026", lê-se no comunicado publicado pelo Serviço de Ação Externa da União Europeia. O bloco "reitera o seu apelo à libertação imediata e incondicional de Jimmy Lai, tendo também em conta a sua idade avançada e o seu estado de saúde".
"A perseguição política de Jimmy Lai e dos ex-executivos e jornalistas do [jornal] 'Apple Daily' prejudica a reputação de Hong Kong", sublinhou o serviço diplomático. Segundo o documento, a UE apelou as autoridades do território "a restaurarem a confiança na liberdade de imprensa em Hong Kong, um dos pilares do seu sucesso histórico como centro financeiro internacional, e a cessarem a perseguição aos jornalistas".
Taiwan critica "um país, dois sistemas"
O Conselho para os Assuntos do Continente (MAC) de Taiwan - entidade responsável pelas relações com a China continental - exigiu o "fim da perseguição política" e a "libertação imediata" de Lai, condenado por conspiração com forças estrangeiras e divulgação de publicações sediciosas. "A severa pena aplicada a Jimmy Lai ao abrigo da Lei de Segurança Nacional de Hong Kong não só o priva da liberdade pessoal e esmaga a liberdade de expressão e de imprensa, como também nega o direito fundamental dos cidadãos a responsabilizarem os seus governantes", afirmou o MAC.
Segundo a entidade, este caso demonstra novamente que, sob o modelo de "um país, dois sistemas" promovido pelo Partido Comunista Chinês (PCC), as liberdades e direitos prometidos aos habitantes de Hong Kong "não passam de meras declarações formais", tendo o sistema judicial sido convertido numa "ferramenta de repressão política e de vingança contra dissidentes". O Governo de Taipé criticou ainda o facto de os crimes imputados ao empresário incluírem a sua influência mediática e ligações internacionais no âmbito da segurança nacional, com o objetivo de "criar um efeito dissuasor que transcenda setores e fronteiras".
"Não se trata de um caso isolado nem exclusivo de Hong Kong, mas de um sinal de alerta de que o PCC está a acelerar a exportação do seu autoritarismo", declarou o MAC, apelando aos cidadãos taiwaneses para que "tomem como advertência a dolorosa experiência de Hong Kong" e protejam o seu "modo de vida livre".
Jimmy Lai, empresário e ativista pró-democracia, fundou o agora extinto jornal "Apple Daily", encerrado em 2021. O seu julgamento tornou-se um dos processos judiciais mais emblemáticos desde a imposição da Lei de Segurança Nacional pela China na Região Administrativa Especial de Hong Kong.
Lai tinha sido condenado em dezembro e hoje conheceu a sentença. Dada a sua idade, a pena de prisão pode manter o ex-magnata atrás das grades o resto da vida. Os co-réus do empresário neste julgamento, seis antigos funcionários do periódico - entretanto extinto - e dois ativistas, receberam penas de prisão entre seis anos e três meses e dez anos.
A organização de defesa dos Direitos Humanos Human Rights Watch considerou uma "sentença de morte" a condenação hoje a 20 anos de prisão do ex-magnata da imprensa pró-democracia Jimmy Lai pela justiça de Hong Kong. Já a família de Lai classificou a pena como "draconiana" e "cruel".