
Pequim diz que o empresário foi o "principal mentor" de protestos em Hong Kong. Países ocidentais alertam para violação da "liberdade de expressão"
Foto: Philippe Lopez / AFP
O fundador do extinto jornal "Apple Daily", Jimmy Lai, foi esta segunda-feira sentenciado a 20 anos de prisão por um tribunal de Hong Kong.
O magnata de 78 anos fora condenado, em dezembro, pelos crimes de conspiração e conluio com forças estrangeiras - uma vez que apelou à imposição de sanções contra a Região Administrativa Especial chinesa e contra Pequim - e de conspirar com a publicação de artigos "sediciosos".
O empresário escapou à prisão perpétua, mas sofreu a punição mais severa até agora sob o abrigo da Lei de Segurança Nacional, aprovada em 2020 e apoiada pelo Governo da China continental. Os três juízes do Tribunal Superior de Hong Kong optaram pela pena de 20 anos de prisão "após considerarem a conduta criminosa e grave de Lai", segundo um documento citado pela agência France-Presse.
Outros seis executivos seniores do "Apple Daily" receberam sentenças de seis anos e nove meses a dez anos. Dois ativistas foram condenados a seis anos e três meses e a sete anos e três meses de prisão. Três empresas ligadas à publicação receberam ainda uma multa superior a nove milhões de dólares de Hong Kong (cerca de 967 mil euros), noticiou o periódico "South China Morning Post".
Tratado no Ocidente como um ativista "pró-democracia", Lai estava detido desde 2020, após uma vaga de protestos iniciada em 2019. As ações contestavam um projeto que permitiria a extradição de pessoas de Hong Kong para qualquer jurisdição onde não houvesse tratados, como a China continental.
Para Pequim, o magnata é, no entanto, "o principal mentor e perpetrador da série de distúrbios que abalaram Hong Kong". "As suas ações violaram gravemente os princípios e a essência do "um país, dois sistemas", colocaram em perigo a segurança nacional e prejudicaram a prosperidade e a estabilidade de Hong Kong, bem como o bem-estar dos seus residentes", acrescentou a diplomacia chinesa.
Enquanto o chefe do Governo local afirmou que Lai "mereceu a punição" pelos crimes "hediondos" e "malignos", os filhos do empresário contestaram a decisão. "Condenar o meu pai a esta pena de prisão draconiana é devastador para a nossa família e coloca a sua vida em risco", disse Sebastien Lai. Claire Lai classificou a sentença como "cruel e dolorosa", que, devido à saúde debilitada, significa que o pai "morrerá como um mártir atrás das grades".
ONU e Repórteses Sem Fronteiras lamentam
A ONU, através do alto-comissário para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu a anulação da sentença, que argumenta ser "incompatível com o Direito Internacional" e "criminalizar o exercício da liberdade de expressão". A organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF), em declarações à agência Lusa, tratou o caso como um "aviso" a Macau, ex-colónia portuguesa vizinha.

