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CP aponta à alta velocidade mas diz que abertura a privados é desvantajosa

CP quer liderar alta velocidade em Portugal Foto: Sara Matos / Arquivo

A alta velocidade em Portugal vai marcar a estratégia da CP para os próximos seis anos. A empresa pública está certa que a operação "tornará o mercado ferroviário mais atrativo", mas alerta para a necessidade de comprar comboios, reforçar e renovar os quadros de trabalhadores, bem como a concretização das obras por parte da Infraestruturas de Portugal (IP). Também não olha com bom agrado para a entrega dos serviços urbanos a privados.

Com mais de 208 milhões de passageiros em 2025 - "o valor mais alto do século" -, a CP prepara-se para apostar as fichas todas na alta velocidade durante os próximos anos. No Plano Estratégico 2026-2032, citado pelo Público, a empresa pretende constituir-se como um operador de serviços de alta velocidade. A operação "tornará o mercado ferroviário mais atrativo, com a possibilidade de ligações mais rápidas e cómodas", diz a CP, que quer integrar o serviço com os comboios Alfa Pendular, Intercidades e Regionais para potenciar sinergias, "economias de escala" e reforçar a sua "vantagem competitiva".

Neste sentido, a possibilidade aberta pelo Governo de entregar a privados a operação de serviços ferroviários é apontada como uma desvantagem na hora de liderar a alta velocidade. A empresa considera que perde a sua posição privilegiada em todo o território, dificultando a interligação entre serviços. Dando o exemplo da homóloga francesa, a CP alude para a importância de manter-se como uma empresa unida para responder a todos os serviços.

Além disso, a transportada avisa que é preciso garantir o endividamento necessário para comprar comboios para essa operação, quer ter mais flexibilidade com a saída do perímetro orçamental do Estado e fala na urgência da concretização das intervenções na infraestrutura, a cargo da IP, dentro dos prazos estabelecidos.

Só 24% dos trabalhadores têm menos de 40 anos

A par com a alta velocidade, a CP assume como desafio o cenário das subconcessões de serviços, nomeadamente nos urbanos do Porto e Lisboa, e deseja manter o contrato de serviço público em vigor até 2034.

No documento, a operadora portuguesa faz ainda uma comparação com as oito congéneres europeias (Itá­lia, Áus­tria, França, Espa­nha, Fin­lân­dia, Suíça e Ale­ma­nha), para apontar às necessidades dos próximos anos. O resultado é desastroso quando se olha para a fiabilidade dos comboios, para o número de passageiros transportados, receita ou idade dos trabalhadores.

Quanto à faturação, a CP justifica o desempenho com a predominância do serviço urbano e da implementação de estratégias como o Passe Ferroviário Verde. Já sobre os trabalhadores, a empresa demonstra que tem um o quadro mais velho relativamente às europeias, aludindo para a necessidade de rejuvenescimento. Mais de 75% têm mais de 40 anos e só 12,5% dos funcionários são mulheres. Não fala de qualquer compra de material circulante para a via estreita, na linha do Vouga.

Recorde-se que, em outubro, a CP e o consórcio Alstom/DST assinaram o contrato para a compra de 117 comboios com opção de mais 36, naquela que foi a maior aquisição de sempre de material circulante. O resultado líquido do investimento de 746 milhões de euros só será visível, na totalidade, em julho de 2033, data prevista para a chegada do último comboio.

Abílio T. Ribeiro