Mundo

Europa fecha-se em concha um mês após o ataque ao "Charlie Hebdo"

França reforçou presença militar nos locais críticos ERIC GAILLARD/REUTERS

Um mês após o ataque ao semanário satírico francês "Charlie Hebdo", a Europa esforça-se por cooperar mais e melhor. Sem consequências visíveis capazes de apaziguar o medo que tomou os europeus.

Os atentados de Paris mataram 17 pessoas, em três dias. Faz hoje um mês, a Europa e o Mundo horrorizaram-se ante a violência do ataque, feito por três cidadãos franceses contra a redação do "Charlie Hebdo" e de uma loja judaica.

Veja a galeria O terror do ataque ao "Charlie Hebdo"

Depois do choque, do luto e da comoção das reações, as consequências do atentado são praticamente impercetíveis aos olhos dos europeus. Nas ruas de Paris e mesmo em toda a França, só o medo e a presença de militares nos pontos considerados sensíveis provam que os atentados detonaram um caminho sem volta, que os políticos da União Europeia tentam agora cimentar.

Hermano Sanches Ruivo, vereador português do 14.o bairro de Paris, explica que "há claramente um antes e um após Charlie", considerando que se passou de um terrorismo que visa o público em geral a "um ato militar preparado com objetivos muito específicos e sobretudo simbólicos".

Há muito tempo que a Segurança e a Defesa não são tratadas como prioridade pela União Europeia (UE). A crise económica e consequente austeridade foram adiando o aprofundamento da cooperação. Hoje, a UE ainda não está diferente, mas sabe já que quer fazer diferente.

"Não houve uma alteração drástica, mas um aprofundar da estratégia de cooperação na segurança e na vigilância, um pouco por todo o Mundo", considera Rui Pereira, presidente do Observatório de Segurança e Criminalidade Organizada e Terrorismo. "Há um esforço para tomar medidas à escala europeia de cooperação na vigilância, mas também na adoção de medidas como a punição do apelo ao terrorismo e a penalização da adesão ao Estado Islâmico", acrescentou o antigo ministro da Administração Interna.

O sentimento de medo disparou em França, após os atentados. Atualmente, 93% dos franceses acham "bastante ou muito elevada" a ameaça terrorista, revela um inquérito do Instituto Francês de Opinião Pública. Antes do atentado, o receio de uma ameaça terrorista era de 80%.

Em Espanha, 58% dos inquiridos numa sondagem feita seis dias após o ataque de Paris, pela Metroscopia, consideravam provável a repetição de um ataque como o 11 de março, em Madrid, que matou 192 pessoas, em 2004.

Em ambos os países, aumentou o apoio à intervenção militar e ao envolvimento numa coligação de estados com o objetivo de derrotar o jiadismo islâmico, na Síria e no Iraque. A intervenção é apoiada por metade dos franceses e por 62% dos espanhóis, quando três meses antes do ataque 75% dos nossos vizinhos defendiam a diplomacia. A Europa mudou desde 7 de janeiro, apenas ainda não se vê.

MARIA CLÁUDIA MONTEIRO