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"Carreira é como sacerdócio"

"Carreira é como sacerdócio"

Apesar de ter iniciado os estudos de canto em Braga, Elisabete Matos apresentou-se, na semana passada, pela primeira vez, na capital minhota, antes de mais um concerto em Pizza, Itália. A 15 de Abril, actua na inauguração da Casa da Música, no Porto, e foi sobre a falta de espaços culturais e de erros da política cultural portuguesa que impedem o salto qualitativo que trocámos impressões.

"Ser cantora lírica não é uma carreira comum. Implica ir para o estrangeiro, não só a nível académico como de carreira, porque temos um só teatro de ópera. É importante que Braga, Guimarães, Porto comecem a construir auditórios e salas de concerto, para que as pessoas tenham acesso à cultura", começa por argumentar Elisabete Matos, alegando que o desenvolvimento registado a outros níveis deve encontrar paralelismo na vida cultural.

Das bases da formação musical da família (na banda das Taipas) parte Elisabete para a defesa de uma revolução cultural, que passa pela proliferação de salas, pela massificação do ensino musical nas escolas básicas, pela política de mecenato que mantenha a autonomia da indústria.

"Em Espanha, qualquer pequena cidade tem um teatro. Aqui tem de se ir ao S. Carlos e mesmo esse perdeu a importância que tinha, pois acolhia as digressões europeias dos principais cantores. É preciso educar as pessoas para que gostem e criar espaços para que possam usufruir", argumenta.

Na leitura da realidade, Elisabete é pragmática "Não estamos a ter políticos capazes. Alguém tem de fazer alguma coisa, porque se me dedico a isto por gosto, os políticos têm de dedicar-se por gosto e não pode ser apenas por carreira". Em moldes mais concretos, Elisabete destaca as acções que os espanhóis dedicam às crianças, "com a ópera para niños", onde os temas infantis, as alegorias servem de iniciação.

Contra a velha prática lusa que valoriza o que vem de fora, a soprano aponta o "sacrifício" como palavra-chave na sua carreira e destaca o "estado permanente de hipersensibilidade", ao qual soma o estudo permanente e o gozo de incursões na audição de jazz e música brasileira.

"A música interessa-me a nível geral", diz, enquanto elege Mozart - "o compositor que sempre amei"- Puccini, Verdi, Wagner e Strauss, tidos como fundamentais na carreira "como cantora, mas como ouvinte também".

"Ser cantora lírica implica ir para o estrangeiro, tanto a nível académico como de carreira"

Natural de Caldas das Taipas, Guimarães, a soprano Elisabete Matos estudou canto e violino no antigo conservatório de Braga. Como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, frequentou, desde os 18 anos, a Escola Superior de Canto de Madrid. Actualmente, trabalha com Angeles Chamorro e com a pianista Enza Ferrari. Já actuou nos principais palcos operáticos do Mundo.