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"O que seria das pessoas sem o Coliseu do Porto?"

"O que seria das pessoas sem o Coliseu do Porto?"
Associação Amigos do Coliseu celebra décimo aniversário com concerto de música portuguesa Figuras da cidade recordam batalha da maior sala do país com Igreja Universal do Reino de Deus

Pedro Abrunhosa está algemado ao Coliseu do Porto. Acaba de conquistar o país com o álbum "Viagens", que haveria de ser tripla platina, e usa a popularidade para impedir que a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) transforme a maior sala de espectáculos do país num local de culto. Corria o ano de 1995. A Empresa Artística SA, proprietária do Coliseu, estava a um passo de ser vendida pela seguradora Aliança, que detinha 90% do complexo.

A IURD, de origem brasileira, notabilizava-se em Portugal, multiplicando a compra de espaços para sessões de culto religioso. Em troca, pedia um dízimo do salário aos devotos da crença. "O problema das seitas religiosas é semelhante ao da toxicodependência. As pessoas viram-se para as quimeras. Os fenómenos são comuns e o país está a saque", revoltava-se então Abrunhosa.

O Coliseu era uma causa social. E ele seria o ícone da causa, que se reflectiria numa população inteira a entupir a Baixa da cidade, com a reclamação "O Coliseu é nosso".

"Foi impressionante", recorda José António Barros, que haveria de ser convidado para liderar a Associação de Amigos do Coliseu do Porto (AACP), e que hoje organiza um concerto com o nome do protesto consagrado aos dez anos de sobrevivência. "Em menos de um mês, a Associação tinha mais de cinco mil associados e mais de 100 mil contos reunidos".

Sensibilizada com a maior manifestação espontânea de sempre da população do Porto, a autarquia de Fernando Gomes indefere a mudança de objecto social do Coliseu e inviabiliza a transacção". A AACP compra formalmente a casa a 2 de Agosto de 1996 por 600 mil contos.

Mais viva há dez anos

"Foi uma luta cívica ímpar, porque as pessoas se reviram naquele crime", reflecte, à distância, Pedro Abrunhosa. "Mas foi possível porque o então presidente da Câmara, Fernando Gomes, foi rápido a reagir. Não sei se hoje, a mesma situação, suscitaria a mesma sensibilidade no presidente Rui Rio".

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O autor de "Tudo o que eu te dou" revê criticamente a cidade "Temos assistido a uma série de atentados. Há locais em risco. Porque é que ninguém faz nada pelo Batalha? Porque é que o Porto era mais vivo há dez anos? Porque é que a cidade perdeu a força cultural e ficou cinzenta? Se fosse hoje", teme, "não sei o que seria do Coliseu. É uma incógnita."

Abrunhosa não sabe e Manuel Serrão também não. "Como não temos um Pavilhão Atlântico, sem o Coliseu, único espaço da cidade capaz de albergar três mil pessoas, ficaríamos limitados ao Rivoli". Mas o empresário acredita que hoje, a mobilização se repetiria. "O problema não está nas pessoas; está nas causas. E quando o que está em causa é a melhoria das condições de vida, para a qual a cultura contribui, a reacção popular surge de forma viva".

"Se for necessário, estarei, mais uma vez, disposto a acorrentar-me ao Coliseu para assegurar que ele continue a ser dos portuenses. E algo me diz que não serei o único neste causa nobre", comprova o artista plástico José Rodrigues.

Maria José Azevedo, na altura vereadora da Acção Social na autarquia portuense, repetiria o empenho todo "Só valeu a pena", exclama. "O Coliseu é um exemplo para o país, e eu sinto um profundo orgulho naquela sala".

Cravinho salva Coliseu

Mas as contrariedades ameaçavam não abandonar o Coliseu. Um mês depois de ter sido comprado, um incêndio volta a arruinar o projecto da cidade. "Fizemos um esforço gigantesco e ficamos sem nada", não esquece José António Barros.

Arderam a torre do palco, o equipamento, as primeiras filas da plateia. Valeu o espírito gestor do presidente que, mal entrou na casa, actualizou as apólices de seguro. Mas não foi suficiente. "Contactei o Ministério do Planeamento, na altura com o ministro João Cravinho. Ele foi sensível. Disse que me dava o que eu precisasse para a reconstrução do Coliseu desde que nunca mais lhe pedisse um tostão. Eu cumpri. E ele também, com 350 mil contos, da forma mais rápida que alguma vez vi alguém actuar".

O Coliseu foi "repintado, redecorado, redesenhado", tendo-lhe sido devolvida a traça original de 1941. "Uma década depois, é justo dizer que o Coliseu cumpre a sua missão cabalmente", orgulha-se Isabel Alves Costa, directora artística do Rivoli.

Preços demasiado altos

Mário Dorminsky partilha o orgulho, mas não a certeza da missão cumprida. "É um espaço conquistado pela cidade mas que não está ao serviço da cidade", lamenta o director do Fantasporto. "É uma sala comercial, que pratica preços muito altos". E deixa a pergunta "O que é que se vê no Coliseu de produção independente, para lá do Círculo Portuense de Ópera?".

Manuela de Melo não subscreve as críticas. "O Coliseu é gerido com dinheiros privados. Isso faz com que não esteja constantemente debaixo do fogo das pessoas. Tem uma vida mais calma, o que não quer dizer que tenha uma vida fácil".

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