Guadalupe é a enfermeira teimosa que decidiu transformar tampas de garrafas em material ortopédico para dar a quem precisa. Levou seis meses até encontrar uma entidade que percebesse que não falava chinês e dois anos depois entregou 16 cadeiras de rodas e uma cama articulada. Como? Com o valor da reciclagem.
Mas conta-se assim esta história visionária, feita de persistência e solidariedade. Guadalupe, a enfermeira de 33 anos, a trabalhar há vários anos no Hospital Garcia da Horta, em Almada, Lisboa, decidiu, no ano de 2003, retomar os estudos e acabar a sua licenciatura. Percebeu que no espaço da sua faculdade não existia nenhum recipiente para pôr as tampas e começou a guardá-las. "A dada altura", conta, "tinha o carro cheio, porque esquecia de as colocar no contentor que havia lá perto de casa".
E nasceu uma boa ideia
Até que um dia, ao olhar para elas, pensou que "se as embalagens têm valor,então a sua tampa também". E, portanto, "que tal trocar estas tampas pelo seu valor e ajudar os outros?". A ideia do material ortopédico surgiu porque, explica a enfermeira, "quando ia a casa das pessoas que estavam em estado terminal, através dos Serviços Continuados do hospital, percebia que nunca se levantavam porque não tinham uma cadeira de rodas".
Comunicou a ideia a alguns amigos, aos pais que "acharam que era louca" e começou a colecção. Tantas juntou que um dia o carro saiu da garagem e para o seu lugar entraram as tampas. Seguiu-se a garagem do pai.
E começaram pois as viagens atrás de um sistema de recolha e de valorização de resíduos para explicar a história que seria, mais coisa menos coisa, assim "Nós damos as tampas, vocês recolhem-nas e estipulam um valor monetário pela quantidade entregue. Não nos dão esse dinheiro. Ficam com ele cativo, nós gerimos os pedidos de cadeiras que nos forem fazendo e depois voçês pagam-nas". Era o mesmo que falar chinês.
Lembrou-se de ir ao contentor da rua lá de casa e tirou o número de telefone da empresa que recolhia o lixo do recipiente. Telefonou. E desta é que foi. O ano de 2003 estava a acabar. "Sim, foi a empresa Amarsul que pôs isto a andar comigo", orgulha-se. A ideia inicial, que era trocar cada tonelada de tampas por uma cadeira de rodas e beneficiar a Liga dos Amigos do Hospital Garcia da Horta, ganhou forma, força e nome "Campanha das Tampinhas".
De Almada para o País
O sucesso foi tal que no final de 2004 já tinham recebido tampinhas de todo o país e a enfermeira Guadalupe achou que estava na hora de criar uma associação. Nasce a "Tampa Ami- ga". O objectivo seria "alargar isto a todo país". E o país já respondeu.
Resumidamente, num verdadeiro movimento de massas, escolas, outras entidades e particulares recolhem tampas e entregam-nas num sistema que as envia para a reciclagem. Entretanto, a associação vai gerindo os pedidos do material ortopédico, que é pago com o valor das tampas, cativo no sistema que as recolheu. Ao todo, foram entregues 16 cadeiras de rodas e uma cama articulada.
E são também vários os sistemas que de Norte a Sul - e mesmo nas ilhas - já aderiram. Ainda assim, há algumas grandes lacunas. "Quem recolhe tampinhas no Porto tem que ir entregá-las ao sistema de Penafiel. Já contactamos a Lipor, mas aguardamos que nos devolva o contacto", lamenta.
A moda das tampinhas pegou e o marido desta enfermeira teimosa acaba por contar que todos na família se renderam, até o Bernardo, o filho de quatro anos. Só Guadalupe, com jeito tímido, ainda não percebeu a sua própria dimensão e diz, amiúde, que tem muito medo de não poder dar resposta a tudo e "de dar um passo maior que as pernas".
A Associação"Tampa Amiga" não tem espaço pró-prio. "Precisamos de organizar tudo e ter espaço para receber os voluntários que, eventualmente, nos queiram ajudar", explica Guadalupe.
A "Tampa Amiga" vive das quotas dos associados e, por isso, "são necessários mais". A jóia é de 10 euros anuais e mais 20 euros anuais. "Estamos a pensar em emprestar material aos nossos associados".
Para quem quiser dar um contributo a esta causa, poderá fazê-lo através da conta bancária
003601809910004557493
Mas o que falta mesmo é mais sistemas de recolha aderirem.
