A carreira do "gangue das perucas" pode ter chegado ao fim. A Polícia Judiciária (PJ) do Porto deteve, ontem à tarde, seis homens suspeitos de envolvimento em dezenas de assaltos a bancos, sobretudo da zona do Grande Porto, em que o alvo principal foi o dinheiro dos cofres, nem que para isso fosse necessário ficarem mais de meia hora no local, mantendo clientes e funcionários como reféns, sob ameaça de armas de fogo e até de granadas. Os suspeitos, todos na casa dos 40 anos de idade, foram surpreendidos pelos inspectores da PJ quando almoçavam num restaurante em Vilar do Pinheiro (Vila do Conde), cerca de duas horas depois de presumivelmente terem assaltado uma agência da Caixa Geral de Depósitos, em Leça da Palmeira, que terá rendido cerca de 190 mil euros.
Segundo o JN apurou, três dos detidos são de nacionalidade francesa e os restantes são emigrantes portugueses na Córsega (França), onde se deslocavam frequentemente para escaparem ao cerco movido pelas autoridades no nosso país. Por norma, o grupo" desaparecia" após ter consumado uma série de assaltos que lhes permitissem arrecadar elevados montantes. Um procedimento que dificultava as investigações policiais.
As autoridades suspeitam que aquela actividade tenha sido desenvolvida ao longo dos últimos sete anos, com incidência na Região Norte, mas com possíveis ramificações a outras zonas do país. Não está apurado um número exacto de investidas, mas suspeita-se de várias dezenas, tendo em conta o "modus operandi".
Cerca de trinta reféns
Na operação ontem desencadeada pela PJ, que envolveu inspectores e prolongou-se por todo o dia, foi apreendido o dinheiro, ainda "fresco", roubado da agência de Leça da Palmeira, bem como armas de fogo e alguns dos disfarces que eram usados nos assaltos, como, por exemplo, perucas, um artefacto que se tornara uma espécie de imagem de marca do gangue.
A Judiciária já estava no encalço do grupo há algum tempo e teria referências concretas quanto aos seus elementos. O assalto de ontem à Caixa Geral de Depósitos, em que cerca de 30 pessoas foram mantidas sequestradas durante quase uma hora (segundo algumas testemunhas) foi o último fôlego. Duas horas depois, os suspeitos foram apanhados de surpresa pelos inspectores da PJ no restaurante de Vilar do Pinheiro. Nem tiveram tempo de reagir.
O "gangue das perucas" notabilizou-se com uma série de assaltos a bancos marcados pela frieza e profissionalismo. Numa das investidas, no BPI da Rua de Gondarém, no Porto, em Maio passado, os assaltantes retiraram as armas a dois polícias à civil que tinham entrado no banco como clientes. O grupo era extremamente organizado e os seus membros tinha funções bem definidas - uns entravam no banco e outros vigiavam as entradas, por vezes munidos de granada. O cuidado em não deixar vestígios era uma das características.
Tudo aponta para que os elementos do "gangue das perucas" se tenham inspirado num famoso grupo de assaltantes que, em Paris, entre 1981 e 1986, "deu água pela barba" às autoridades francesas, levando a cabo mais de três dezenas de assaltos. Foi tão grande a sua fama na altura que, desde então, vários livros foram escritos e para este ano está mesmo prevista a estreia de um filme inspirado nas actividades do bando. Para além da semelhança dos disfarces usados pelos dois grupos (os franceses acrescentavam ainda um toque de classe, vestindo-se impecavelmente para os roubos), também os métodos são praticamente iguais. O gangue francês era também composto por cinco a seis elementos e no banco separava-se em dois grupos. Um tomava conta dos reféns, o outro seguia directamente para o cofre e abria-o. Sempre sem preocupações de tempo, chegavam a estar mais de meia hora dentro dos bancos. Tal como no gangue agora detido, juntavam-se apenas para fazer os assaltos e, chegavam a fazer vários no mesmo dia, separando-se em seguida, muitas vezes fugindo para o estrangeiro. As fortes críticas à actuação da Polícia motivaram uma concentração de meios na investigação que viria a dar frutos a 14 de Janeiro de 1986. Foram detidos quando saíam de uma agência bancária que acabavam de assaltar. A história do bando inspirou dois livros, um deles seria a base para o filme "36 Quai des Orfèvres" de Olivier Marchal, que estreará, em Outubro, em França.
Ameaçou explodir granada se alguma coisa corresse mal
O ataque à Caixa Geral de Depósitos de Leça da Palmeira foi quase tirado a papel químico das últimas investidas em agências do Grande Porto atribuídas ao "gangue das perucas". Mais uma vez, foi escolhida a hora do almoço e os assaltantes só se contentaram quando carregaram para o saco o dinheiro que estava guardado no cofre. Segundo testemunhas ouvidas no local pelo JN, o grupo terá permanecido quase uma hora nas instalações, agindo sempre com "muita calma e profissionalisma".
Serafim Gonçalves foi uma das vítimas. "Estava a tratar de uma transferência quando entraram os três indivíduos, armados com pistolas. Disseram que era um assalto e mandaram as pessoas encostar a um canto e ficarem quietas. No início, ainda pensei que fosse uma brincadeira", recordou. Os assaltantes estavam disfarçados com lenços, bonés, bigodes postiços e óculos escuros. "Era difícil reconhecê-los", acrescentou a mesma testemunha, contando que ainda foi empurrado, derrubando uns placards. Serafim Gonçalves sublinhou que um dos assaltantes estava munido de uma suposta granada, que "ameaçou fazer explodir" caso algo corresse mal. Na altura, a agência estava cheia de clientes e os que iam chegando eram "acompanhados", discretamente, para o interior do banco. Uma das vítimas acabou por ser uma jovem grávida, que se sentiu mal. Mas, revelando frieza, os assaltantes permitiram que um dos funcionários lhe desse um copo de água.
"Admirou-me a calma. Como se não fosse nada com eles", comentou Carlos Oliveira, outro dos reféns, que chegou a ter uma arma apontada à cabeça.
"Estavam sempre a dizer que não iam fazer mal a ninguém.À saída, levaram o gerente como refém", contou.
