Morreu ontem, com 77 anos, numa enfermaria do Hospital de S. João, no Porto, onde dera entrada há cerca de dois meses, a escultora Irene Vilar.
Maria Irene Lima de Matos Vilar, de seu nome completo, nasceu no dia 11 de Dezembro de 1931, em Matosinhos.
Mas o seu nome e a sua obra andam estreitamente ligados ao Porto, porque foi nesta cidade que ela cresceu, estudou e exerceu toda a sua intensa actividade de artista profissional.
Foi, de facto, no Porto que completou os estudos liceais e logo a seguir matriculou-se na Escola de Belas Artes, então dirigida pelo mestre Carlos Ramos, tendo terminado o Curso Superior de Escultura em 1955, com a classificação de 20 valores.
Em 1958, como bolseira da Fundação Calouste-Gulbenkian, foi estudar para Itália e viajou pela Espanha, França e Suíça.
Frágil de aspecto, mas senhora de uma invulgar vitalidade e muito determinada em tudo o que fazia, Irene Vilar podia ter entrado muito cedo, e sem qualquer dificuldade, na galeria dos "iluminados" do seu tempo, mas, em vez de se "encostar" aos grupos e tendências que facilmente podiam abrir os caminhos de uma vã glória, preferiu o sossego do seu ateliê, onde, como artista independente, executou algumas das melhores obras de escultura do nosso tempo.
Nos começos da década de 60, tive o privilégio de entrevistar Irene Vilar no seu ateliê, então instalado no acanhado espaço de um modesto andar da Rua de Trás. O pretexto da entrevista foi o prémio conquistado pela escultora na IV Bienal de Paris, com a sua obra o "Cerco" - um notável trabalho em madeira que era, nessa altura, o material preferido da artista para trabalhar. Disse-me então que "gostava de ter nascido numa floresta e ter sido a filha de um lenhador?"
Quem conheceu a artista sabe bem que era uma pessoa extremamente simples,extraordinariamente simpática, escudada num espírito muito culto, aberto e comunicativo.
Dedicou-se ao ensino. Fez um estágio na Escola de Gomes Teixeira e deu aulas na Escola Secundária de Clara de Resende. Ensinou Desenho, Educação Visual e História do Traje. Foi directora da antiga Escola Industrial Aurélia de Sousa. Foi todavia na Clara de Resende que finalizou a sua carreira de docente em 1987.
Irene Vilar participou em inúmeras exposições, individuais e colectivas, e recebeu vários prémios .
Impossível referir no limitado espaço de um artigo necrológico a imensidade e, sobretudo, a densidade e o significado da sua obra. Referem-se apenas as peças mais emblemáticas a Guilhermina Suggia, no Porto; o Fernando Pessoa, em Ixelles (Bruxelas); D. António Ferreira Gomes e o conjunto escultórico que representa a tradição do "carneirinho", em Penafiel; a belíssima escultura do anjo "o Mensageiro", na Cantareira, junto ao Douro; a figura do Padre Américo no acesso ao Hospital do Sousa, em Penafiel; o monumento ao Pescador, em Matosinhos, feito num armazém de Guifões; Florbela Espanca, também em Matosinhos; Garcia de Orta, no Porto; e o Abraço, em Macau.
A medalhística, a numismática e toda a simbologia cristã em muitos altares de igrejas e portas de sacrários, além de cruzes e anéis prelatícios, foram áreas por onde Irene Vilar também espalhou o seu talento. A cruz peitoral de D. Manuel Clemente, bispo do Porto; e a cruz e o anel de D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, são da sua autoria.
O funeral da artista realiza-se hoje, às 15 horas, com missa de corpo presente na capela das Carmelitas, obra da escultora, na Rua de Gondarém, na Foz.
