Quaresma é o jogador da moda. É o cigano mais famoso do país, tem o espírito rebelde dos cavalos selvagens - Lazlo Bölöni chamava-lhe mustang. Mas é introvertido, só se mostra no campo, onde perde a timidez e chega a ser outro personagem. É o jogador do F. C. Porto mais idolatrado, capaz de vender quatro, cinco mil camisolas - representa 60% das vendas do clube. Formado no Sporting reencontra hoje a ex-equipa e tem esse dom que o distingue dos outros. Não é detestado pelos adeptos rivais.
"É uma referência". É assim que Vítor Marques, da Union Romani portuguesa, associação cigana, começa por caracterizar o craque. "Porque é o português de etnia cigana mais conhecido no estrangeiro". Exibe os valores da comunidade, a fé em Deus e o amor à família - a mãe e o irmão são valores sagrados. Tem nove tatuagens, algumas delas com o nome dos familiares. São os traços de um artista que tão depressa silencia como exalta, capaz dos mais variados improvisos. Uma vez até pensou ser jogador de hóquei em patins.
Um nome no bloco
Quaresma foi a figura da selecção de sub-16 (ganhou em 2000 o Europeu, em Israel). Nas bancadas, há um treinador que anota nomes num bloco - um deles é Quaresma. "Um ano mais tarde, chego ao Sporting e um dirigente diz-me que um miúdo vai fazer a pré-temporada connosco". Bölöni sorri. "Já sabia que Quaresma era um talento". No primeiro treino "teve o Dimas como adversário, mas fez maravilhas e ficou no grupo, claro".
Estreia-se frente ao F. C. Porto, em 2001. E germina a fama que o levaria a lenda. Tem 17 anos e deixa Mário Silva de rastos. O nome desperta o Manchester United e o Barcelona, mas a Catalunha era o sonho de criança - por seis milhões de euros transfere-se em 2003. Seria um ano de alegria e de tristeza - 22 jogos, 11 a titular, uma lesão e conflitos com Rijkaard. "Não teve sorte. Era jovem e chegou numa altura de mudanças", recorda o ex-colega Oscar López, do Nástic.
De patins no pavilhão
Ricardo tem 11 anos. Mas o futebol não é tudo na vida. Aventura-se no pavilhão do CACO de Campo de Ourique, em Lisboa, passa-lhe pela cabeça ser jogador de hóquei em patins. "Vinha com um amigo e aprendeu a patinar durante meses. O amigo foi embora e ele deixou de aparecer", resume o coordenador Luís Simões. Mas não foi por causa do amigo. É o irmão Alfredo, a grande referência, quem o faz desistir. Porque estava fadado para ser futebolista. E dos bons.
Recua-se mais. Estamos no início da década de 90. Aos oito anos, projecta sonhos na Escola Domingos Sávio, em Lisboa. Conhece as manhas e os truques do jogo e tem um repertório variado. "Só queria a bola para ele", lembra-se António Silva, o primeiro treinador. "Não a passava a ninguém". Sempre ao sabor das fintas. Mas o menino é um rapaz de sorte. O apelido Quaresma chega ao Sporting - não pelo dom de Ricardo, mas pela arte de Alfredo, a quem o destino reservou um lugar de mero figurante no futebol nacional. E vem um olheiro observá-lo. Enquanto espera pela mãe, vê um miúdo a fazer passes de trivela como gente crescida. Sim, é Ricardo. Nem hesita - contrata os dois. E passa a perna ao Benfica.
Adriaanse e o circo
Estamos em 2004. Quaresma chega ao F. C. Porto envolvido na transferência de Deco e fica com o passe avaliado em seis milhões de euros - hoje já vale entre dez a 15 milhões e tem o Atlético de Madrid, o Chelsea e o Inter na corrida. Barcelona fica para trás, a alcunha de "Harry Potter" também. Mas a época é tão intermitente como a equipa. Na temporada seguinte tudo é diferente. Vem Adriaanse, que lhe dá sentido táctico ao jogo, obriga- -o a defender, mostra-lhe que o futebol é um processo colectivo. "Quaresma, isto não é o circo!", gritou-lhe uma vez num treino. Deixa de fintar só para ele, nasce um jogador maduro. É outro mustang? "Não, não é", responde Laszlo Bölöni "Um mustang é um cavalo que tem de ser domesticado. O Quaresma já está domesticado, já é um cavalo de corrida. E dos bons. Quem apostar nele, vai ganhar muito dinheiro".
A primeira tentativa para domesticar o futebol rebelde aconteceu ainda criança no Sporting. O treinador dos infantis faz uma experiência contranatura e o processo espanta. Quaresma recua no terreno. "Fomos campeões nacionais com ele a jogar a trinco", diz Lourenço, agora no Panionios. Mas a partir dos iniciados volta a ser o que sempre foi, um extremo solto, um avançado felino ou um número dez errante. "Fazia coisas incríveis. Jogava com três pares de meias de enchimento, nem sei como sentia a bola". Hoje, os adversários não sabem como roubá-la. Até Mourinho ficou com os cabelos em pé.
