Luanda, 20 Jun (Lusa) - Militares armados despejaram à força de suas casas 70 famílias, prenderam cinco pessoas e violaram uma mulher num bairro de Luanda, disse hoje à Agência Lusa fonte da Associação "Mãos Livres".
Segundo o advogado desta organização, David Mendes, que deu a informação, a situação ocorreu na tarde de terça-feira no perímetro da antiga Escola de Oficiais Militares Comandante Gika, no bairro como o mesmo nome, com a demolição de casas no local, onde será erguido o maior centro comercial de Luanda, denominado Luanda Shopping Center.
"O problema começou pela demolição das casas de populares para a construção do Luanda Shopping Center, uma entidade privada, para a qual não se justifica a intervenção de forças militares para executar tal acção", salientou David Mendes.
Segundo o jurista, "há famílias ao relento, porque não lhes foram atribuídas novas residências e houve até a violação de uma mulher por militares, um caso que consideramos da maior gravidade".
"Entre os cinco detidos conta-se o coordenador da comissão de moradores, tendo estes sido levados não para uma esquadra de polícia, mas para a unidade da Polícia Militar", disse o advogado à Lusa, adiantando que vai ser exigida a responsabilização dos militares que procederam aos despejos, detiveram pessoas e violaram uma mulher, visando a reposição da legalidade.
O coordenador da comissão de moradores, Ramos Pinto, foi uma hora depois posto em liberdade, desconhecendo-se de momento o paradeiro dos outros quatro detidos.
Contactado pela Lusa, Ramos Pinto afirmou que desde Agosto de 2006 decorrem negociações entre a comissão de moradores e o governo local sobre a necessidade de acabar com o bairro para a construção de um empreendimento comercial, devendo os moradores naquela área ser transferidos para novas casas na zona do Panguila, município de Cacuaco, arredores da capital angolana.
No entanto, Ramos Pinto referiu que daquela data até agora tem havido "várias irregularidades e incumprimentos" da parte do executivo local que em vez de atribuir casas aos moradores do bairro Gika, estão a dá-las a pessoas de outras áreas.
"Isto levou a que nos organizássemos e nos fossemos à Provedoria de Justiça, à Associação Mãos Livres e ao sector das Nações Unidas ligado aos direitos humanos, que optaram por fazer deslocar ao local uma delegação, na terça-feira, que deparou com um forte cordão de segurança para impedir a visita, tendo-me detido, juntamente com mais quatro moradores", salientou Ramos Pinto.
O coordenador da comissão de moradores disse não ter sido molestado pela Polícia Militar onde foi levado, mas que sofreu ameaças de espancamento.
"Neste momento tudo está bem, pois a minha integridade física não foi tocada, mas chegaram a dizer-me que devia ser torturado", frisou.
"Há um processo-crime contra mim na polícia e desconheço o paradeiro das outras pessoas que foram presas comigo", acrescentou Ramos Pinto.
Também em declarações à Lusa, o porta-voz do governo provincial de Luanda, Ladislau Silva, referiu que os visados são os ocupantes do antigo quartel Comandante Gika são e não os moradores do bairro que tem mais de um milhão de pessoas, que, garantiu, continuarão a viver no local.
"Os que ocuparam ilegalmente o quartel militar é que deviam sair do local, pois foram notificados há mais de três anos e todos eles sabem disso", afirmou Ladislau Silva.
Este responsável considerou "ilegais" os ocupantes do quartel, que ali faziam pequenos negócios, como lavar carros e remendar pneus.
"Estes nada têm a reclamar, mas as pessoas que durante a guerra ocuparam a outra parte do terreno foram catalogadas e o governo está a atribuir casas porque o empreendimento em construção está a cargo do Ministério das Obras Públicas", frisou.
HSO.
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