Aimaginação é o mais forte dos sentidos. Quando me deito, é nela que encontro toda a paz que me embala como se fosse uma criança e me faz dormir com a tua imagem, o teu cheiro e a tua pele sobre a minha durante toda a noite. Fecho os olhos e de repente estás ao meu lado, perfeito, poderoso, belo, terno. Sinto o teu sangue a correr pelas minhas veias enquanto o meu corpo se enche do teu. Sinto o peso das tuas pernas sobre as minhas ancas, enquanto seguro o teu peito com os meus braços e agarro a tua nuca e a tua cara como se fosses uma estátua grega.
Quando amamos verdadeiramente alguém, nunca mais deixamos de amar. A memória instala-se como uma praga impossível de dizimar e aprendemos a carregar esse peso como se fosse nosso. E é.
A tua memória é doce e fresca, como tu. Traz-me sempre o teu sorriso aberto, os teus olhos de criança, a tua forma angulosa de andar, o cheiro do teu cabelo despenteado, a tua voz quase infantil, a tua calma e o teu talento para ser feliz.
Guardo tudo como um tesouro que se encontrou por acaso, mas que não se tranca num cofre porque nunca foi nosso, mas apenas um presente da sorte. Guardo tudo em silêncio, enquanto imagino que fazes o mesmo e que estou por aí, invisível e imaterial, a povoar o teu sono e a fazer-te sorrir quando caminhas pelas ruas e entras em lugares onde fomos felizes.
Tenho a certeza que também te vais lembrando de mim aos poucos, como quem desfia um novelo e o deixa rebolar pelo chão. Também guardas o nosso amor em fotografias, cheiros e gestos. Também fechas os olhos para me ver melhor. Também tens saudades de me ouvir rir e de me ver dançar pelas ruas da tua cidade, também te ris sozinho quando te lembras da minha falta de jeito para andar de bicicleta, ou da minha pronúncia desajeitada sempre que falava a tua língua. E guardas, essas sim, como tesouros, porque foram mesmo escritas para ti, todas as palavras que te dei.
Daqui a algum tempo, talvez meses ou anos, tanto faz, o teu coração vai disparar como uma flecha e vais ter vontade de voltar a viver tudo outra vez. A memória das tuas células vai chamar por mim e sentirás em todos os poros a nostalgia do meu amor por ti e do teu amor por mim que se perdeu um dia, sem nenhum de nós saber como nem porquê. Vais ter saudades de tudo o que vivemos e vais perguntar a ti próprio onde estou e como me sentirei nesse momento. Vais rezar às estrelas e pedir um sinal que te diga que estou bem, que continuo igual, que o tempo não me deixou marcas e as tristezas não me apagaram a frescura. Vais imaginar-me outra vez ao teu lado, como uma amiga, uma presença benéfica e protectora e vais querer dar-me a mão, para me dar tudo o que te dei, para me compensares da tua ausência, para resgatar da tua consciência a leveza dos anos passados, quando me conheceste e me desejaste tanto e tão bem.
Às vezes a tristeza invade-me os dias, quase sempre de manhã, quando o sono se retira e sou obrigada a viver mais um dia sem ti. A vida é um sonho, é o despertar que nos mata, e quando estamos apaixonados nenhuma realidade nos toca, somos seres quase divinos, flutuamos sobre o mundo como deuses e tocamos a eternidade com a ponta dos dedos. Mas quando a paixão morre, descemos à terra como anjos caídos, doem-nos os ossos da queda e sentimos que perdemos todo o poder que tínhamos, o toque divino, a capacidade de voar, a vontade que vencia todos os silêncio e todas as distâncias.
A paixão morre como uma flor, dura apenas uma estação, um Verão glorioso, alguns meses de sol e de calor. Depois, é preciso receber o Outono e aceitar a queda das folhas das árvores como o caminho de todos os anjos e guardar o coração do frio, hibernar a alma, protege-la de todos os frios e plantar a esperança debaixo da terra, ao lado das sementes de flores de todas as cores que se vendem em caixas como sonhos prometidos.
Somos dois anjos caídos num Inverno sereno e tranquilo, somos duas memórias que o tempo não pode apagar, somos a imaginação um do outro, até que um novo amor rebente todas as portas e nos faça voar outra vez sobre todos as coisas, como semideuses, seres perfeitos e eternos, estátuas gregas que ligam o céu e a terra, a realidade e o sonho, o presente e o passado com a ponta dos dedos.
