Aos 20 anos começou a trabalhar nas rádios pirata da linha ("A Miramar", "Comercial da Linha"). À televisão, chegou no começo da SIC, como "voz off". Deu aulas na Universidade Autónoma depois de ali frequentar Ciências da Comunicação. É um homem de bem com a vida, com a sua eleita RTP e com o adorado "Portugal no coração", que nos mostra as suas pinturas no ateliê. Hoje conduz um directo deste programa desde a Suiça.
[Jornal de Notícias] Pela sua maneira de estar, parece apreciar o contacto directo com o público na televisão.
[José Carlos Malato] Acho que não é possível enganar as pessoas. Sou mesmo assim. Tenho noção que aquilo que digo é ampliado pelo Mundo inteiro, pelo que não poderia continuar muito tempo com uma farsa.
Mas um apresentador pode fazer um "boneco"?
Não criei uma personagem para estar ali. Claro que há uma parte de mim que é reservado, mas mesmo assim exponho-me muito em relação ao que penso e gosto. Não faço números, nem é esse o meu objectivo.
Muito novo, nas Testemunhas de Jeová, iniciou-se na comunicação. Foi uma boa aprendizagem? Apenas tive um amigo da minha idade. A minha infância sempre foi no meio de gente mais velha. Sempre fui muito crescido. A dinâmica das Testemunhas de Jeová obrigou-me a estudar muito, a encarar a vida com mais seriedade. A comunicação começa justamente aí, no facto de ter de moldar o meu discurso para que as pessoas não me fechassem a porta nos primeiros cinco minutos. Ter sido das Testemunhas de Jeová foi decisivo para bater sem medo a uma porta, por trás da qual está uma pessoa desconhecida. Isso é coisa que faço todos os dias na televisão.
Os estudos académicos ajudaram a consolidar esta faceta?
O rigor nas palavras e a questão da ginástica mental, da capacidade de argumentar e de perceber as perguntas foi coisa que me ficou da Filosofia. Do curso de Comunicação acabei por adquirir uma cultura geral que cimentou aquilo que sabia.
"Portugal no coração" foi ao mesmo tempo desafio e "consagração"?
Foi um desafio, mas enquadrou-se naquilo que eu achava que poderia fazer em televisão. Era um programa absolutamente português, que pretendia ligar os portugueses de fora e os de dentro. Precisava de alguém que conhecesse Portugal e que fizesse, de alguma maneira, a ponte entre os novos e os velhos. Eu nunca fui muito de querer aparecer, mas este programa era a minha cara, aquilo que eu sempre quis fazer. E tive de vir para o Porto, mudar a minha vida toda.
Sente-se mais em casa aqui do que no "Um contra todos" ou no "Top +"?
O "Um contra todos" acabou por me resgatar daquela carga de pimba que as pessoas ganham nos programas da manhã e da tarde. O concurso deu-me outra enquadramento. ' Ah, afinal, ele é um tipo culto', quando o que eu faço no "Portugal no coração" é, apenas, trocar tudo por miúdos. É a eficácia da comunicação.
O mais importante da TV é chegar a um público alargado?
Justamente, é o que interessa. Daí, que eu costume dizer que gosto muito mais do público do "Portugal no Coração", que me aceitou de coração, do que gosto dos outros, que só me abriram a porta depois de olharem pela janela. No concurso pude elevar um bocadinho a fasquia e ter outro tipo de registo, mas sou muito mais feliz a fazer o "Portugal no Coração".
Trabalhou na SIC antes de entrar na RTP.
Entrei para a RTP quando começamos a fazer a promoção "A RTP faz parte da nossa vida". Se me perguntassem o que gostava de fazer na TV, dizia de imediato apresentar o "Festival da Canção", o "Natal dos Hospitais" e pouco mais. A SIC deu-me aquilo que as rádios locais me davam, aquela pica de trabalhar. Depois acentuou-se o cinzentismo da RTP, naquela onda do serviço público, que é pesado sem necessidade nenhuma. A SIC deixou de funcionar a partir do momento em que engordou. Havia aquela arrogância intelectual. Enerva-me que as pessoas sejam intelectualmente arrogantes, é uma coisa muito feia. Na RTP não me obrigam a fazer coisas de que não gosto. Portanto, estou no sítio certo.
Em televisão, o que lhe dá mais gozo fazer?
O que faço todos os dias conhecer muita gente, mostrar as suas qualidades.
A vinda para o Porto mudou mesmo a sua vida?
Mudou tudo. Fazia publicidade, dava aulas, trabalhava na rádio e na TV, e não tinha tempo para nada. Não tinha vida e o Porto devolveu-me isso. O Porto foi a minha salvação.
Não acha estranho já ter um largo com o seu nome, em Monforte?
No início, foi. É a minha terra e como não sou de voltar as costas às pessoas que gostam de mim , lá estou eu.
Parece que há alguma coisa nova para si na RTP?
O que me disseram foi temos planos para ti em 2006. Como não sou de fazer projectos, o que for, como se diz no Alentejo, soará.
