Carlos Gomes
"Faz todo o sentido que os massacres da Baixa do Cassange, em Angola - tal como os massacres do cais do Pidjiguiti, na Guiné, e o de Mueda, em Moçambique - sejam considerados acontecimentos fundadores das histórias dos estados-nação que são hoje os países independentes de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique e, como tal, sejam apresentados e celebrados", disse ao JN o coronel do Exército na Reserva, Carlos de Matos Gomes.
Este oficial - co-autor do livro "Guerra Colonial" (editado em 2000), com o coronel Aniceto Afonso, director do Arquivo Histórico-Militar - fez estas declarações ao JN a propósito do destaque que a agência France Press deu, no passado dia 4, a declarações de José Fufuta, presidente da Associação de Apoio ao Desenvolvimento da Baixa do Cassange, e de um chefe da comunidade local, sobre a reivindicação de um "pedido de reparação" a Portugal.
Arquivos históricos
A France Press adiantava que a classe política de Angola estima terem então sido mortas dez mil pessoas, mas "os historiadores angolanos nunca puderam estabelecer o número concreto, por falta de registos".
Josep Sanchez Cervelló - professor e investigador de História Contemporânea, em Tarragona, Espanha, que diz conhecer um vasto espólio documental (algum secreto) sobre Portugal, e que entrevistou todos os protagonistas do 25 de Abril e do processo revolucionário posterior - afirma que a sublevação da Baixa do Cassange, em Janeiro de 1961, colheu de surpresa as autoridades portuguesas, tendo começado por uma greve laboral na empresa algodoeira luso-belga Cotonang, como protesto contra salários em atraso.
Considerando estes factos e tendo em conta que, em Portugal, não há restrição à consulta nem do arquivo histórico militar (exclusivamente do Exército) nem do arquivo do antigo Secretariado da Defesa Nacional, o JN procurou obter, junto do responsável da Universidade Agostinho Neto (UAN) explicação para a alegada dificuldade dos historiadores de Angola.
"Existe uma comissão, constituída por cerca de 25 pessoas e sob coordenação da Direcção do Arquivo Histórico, que está a recolher e a tratar informação de várias procedências (Bélgica, França, Portugal, etc.) sobre diversos aspectos (político, económico, cultural, etc.) do passado de Angola", disse ao JN Adélia Carvalho, responsável do departamento de Investigação Científica e Pós-graduação da Reitoria da UAN.
Para o coronel Matos Gomes, "os agricultores do Cassange, obrigados a vender o algodão ao preço fixado pela Cotonang, os estivadores do Pidjiguiti em greve, ou os macondes de Mueda diante do governador colonial, representam o papel de vítimas sacrificiais e surgem na história dos seus países ainda numa fase anterior ao desencadear da violência armada por parte dos movimentos nacionalistas já estruturados politicamente".
O historiador sublinha "Todos eles se revoltaram por razão directa da opressão, e fizeram-no desarmados, sem se defenderem. São, por isso, a representação ideal da pureza da luta que está para vir. Possuem um halo profético e passam a ser uma herança comum. Entram na mitologia fundadora. Estão já fora da história, entendida esta como sucessão de factos sujeitos a verificação material. Daqui, deixar de ter interesse saber se foram massacrados mil ou dez mil. Para a história de Angola, serão sempre dez mil os massacrados do Cassange, mesmo que o número nunca seja apurado e possa ser considerado pouco verosímil face às condições objectivas em que as forças portuguesas os atacaram" (ver texto ao lado).
Interesses ocultos
Matos Gomes não deixa passar sem reparo o relevo mundial que a France Press deu a este "pedido de reparação" a Portugal "A França e as empresas francesas estão interessadas no mercado de Angola e explorar uma ferida ali deixada pelos portugueses pode ajudar a concretizá-los. Mas convém recordar que foi junto do Exército Francês, na Argélia, que os militares portugueses se prepararam para a guerra colonial em Angola (de que o massacre do Cassange foi prenúncio) e foi junto da Frente Nacional de Libertação Argelina que os guerrilheiros nacionalistas receberam treino para a luta anti-colonial", recorda o historiador.
Membros da comunidade local reivindicam um "pedido de reparação" a Portugal
Aviões de luta contra submarinos
O protesto dos agricultores da Baixa do Cassange, em 1961, no Norte de Angola (a mais de 300 quilómetros do litoral), não se limitou à greve. "Os habitantes da região queimaram as sementes, destruíram ou interromperam vias de comunicação, mataram gado, invadiram armazéns e missões católicas, expulsaram os brancos, mas não utilizaram armas. Para reprimir este movimento, as autoridades socorreram-se de unidades do Exército e da Força Aérea presentes em Angola, que atacaram os grevistas, de 24 de Janeiro a 2 de Março, transformando a acção num desproporcionado massacre de populações", escreve o investigador Josep Sanchez Cervelló, em "Guerra Colonial", livro de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, originalmente editado em fascículos semanais pelo Diário de Notícias, no período de 1997-1998. Por outro lado, registos militares a cujo acesso não há restrições indicam que, no início da rebelião em Angola, os recursos bélicos disponíveis na região do Cassanje eram tropas de Infantaria (uma Companhia de Caçadores Especiais) equipadas com espingardas Mauser (armas de repetição) e aviões "PV-2 Harpoon" da Força Aérea Portuguesa, que tinham sido desviados da missão de luta anti-submarina (na Base Aérea n.º 6 do Montijo) e adaptados para missões de ataque ao solo.
