O artesanato surgiu na vida de Firmino Oliveira há 18 anos, como forma de conseguir aumentar os rendimentos familiares. E aconteceu como forma de voltar a fazer aquilo que em criança mais o deliciava: a construção de brinquedos de madeira.
Depois de 12 anos a trabalhar numa empresa de metalomecânica, Firmino Oliveira começou a dar aulas de trabalhos manuais e oficinais. "Era professor provisório e com um salário não muito alto, pelo que comecei a fazer algumas peças de artesanato para vender", conta ao JN.
Hoje, aos 47 anos, 14 dos quais como presidente da Junta, o artesão já tem o seu próprio espaço para fabricar os brinquedos de que tanto gosta: a Casa da Eira, em Chavinha, na freguesia de Vaqueiros, Santarém.
O local foi outrora um palheiro. Mas o artesão adquiriu-o e transformou-o numa oficina (onde passa todos os tempos livres), e sala de exposições, onde vai colocando alguns dos objectos que criou, ao longo das últimas duas décadas. O seu desejo é conseguir abrir aquele espaço ao público, com destaque para as visitas escolares. Um projecto que, acredita, poderá começar a tornar-se realidade a partir do próximo Natal.
Por enquanto, vai construindo os seus brinquedos com o objectivo de os divulgar e vender nas feiras de artesanato que, anualmente, se vão realizando pelo país. "Quando comecei no artesanato, ia a quase todas as feiras que se realizavam no país. Hoje, já não tenho muito tempo disponível, por um lado, e, por outro, participar nesses eventos é cada vez mais dispendioso", conta. E sublinha: "Temos que ser nós, os artesãos a suportar os custos, porque não há apoios para isso".
Mas foi nesses eventos que conheceu alguns dos seus melhores clientes, que têm levado o seu artesanato para vários pontos do Mundo.
O artesão recorda um comprador que encomendava, todos os anos, mais de uma centena de moinhos, que, depois, revendia nos Estados Unidos da América. "Depois do 11 de Setembro, tudo mudou", conta, aludindo a uma recessão económica que "atingiu o artesanato". E também nesse sector, garante, se nota "a concorrência do Oriente".
É por isso que Firmino Oliveira não desiste de fazer investigação sobre as actividades características da sua região e as tenta recriar nos brinquedos que constrói, apostando em peças originais. Há oito anos, um projecto de sua autoria - a réplica de uma antiga azenha do rio Alviela - foi seleccionado para a final num concurso promovido pelo Instituto de Emprego, que decorreu na Feira Internacional de Lisboa. "Não ganhei, mas fiquei muito orgulhoso", conta.
Garante ter desenvolvido a arte sozinha, aperfeiçoando as técnicas que usava quando criança e aplicando os conhecimentos de mecânica. "Ainda hoje tenho a marca de um corte na mão, que fiz aos seis anos, quando construía um brinquedo", recorda.
Há três anos, começou a ensinar a sua arte, num curso promovido por uma Instituição de Solidariedade Social, destinado a desempregados que pretendiam criar o seu próprio emprego.
E já este ano lectivo, no estabelecimento onde ainda lecciona, no agrupamento de escolas Duarte Lopes, em Benavente, criou o "Clube do Brinquedo". Ali, ajuda os alunos a fazer pesquisa sobre os brinquedos típicos e explica-lhes a arte de os construir. "Não é qualquer pessoa que pode construir brinquedos em madeira. Para além de gostar, é preciso ter jeito e muita paciência", considera, contando que há brinquedos que constrói compostos por quase uma centena de peças.
Com menos tempo do que desejaria para dedicar à arte, conta com o auxílio da mulher, Albertina, e do filho, André. E mostra-se convicto de que a sua arte não morrerá consigo. "O meu filho interessa-se por isto e acredito que vai seguir a actividade", afirma.
O primeiro carrocel
"Em pequeno, sempre construí os meus próprios brinquedos. O meu pai era padeiro e usava a madeira para aquecer o forno. Eu aproveitava para tirar alguns bocados e construir o que a minha imaginação ditava. No artesanato, comecei por fazer candeeiros em palhinha, mas rapidamente percebi que o que me motivava eram os brinquedos. O primeiro que construí foi um carrocel. Ainda juntava, um pouco, os traços que usava nos candeeiros. E não tinha, agora constato isso, o rigor e a perfeição que hoje tento que as minhas peças tenham. Foi há cerca de 17 anos que o construí. Fui aperfeiçoando a técnica, adquirindo máquinas para auxiliar no trabalho, e nunca deixei de fazer brinquedos".
Os moinhos da região
"Dos moinhos que existiam na freguesia, restam dez. Procuro retratá-los, antes que desapareçam, para que a próxima geração fique a conhecê-los".
O jogo do galo
"Um dia, lembrei-me que, em pequeno, havia um jogo do galo recortado. Foi nele que me inspirei para fazer este, que tem muito boa aceitação".
Ao pormenor
O carro de bois
"Tomei como modelo uma carroça original desta região para fazer a réplica. Agora, só me falta criar os bois. É o mais recente projecto".
A roda gigante
"Só as miniaturas da roda chegam a levar, cada uma, duas horas para fazer. A peça inteira pode levar um dia e requer perfeição para funcionar bem".
