Quem gosta de futebol, tem de gostar de Cristiano Ronaldo. Quando a bola lhe chega aos pés, os adeptos levantam-se, num gesto cerimonioso, mas que não é mais do que o instinto natural de quem pressente que está a chegar mais um momento de magia. Ele é um aditivo para qualquer equipa. E um imenso prazer para quem o vê em campo.
Tem uma infindável colecção de fintas. O seu jogo de pernas é tal que os jornalistas ingleses até lhe chamam "bailarino de flamenco". Mas não. Ronaldo não é um dançarino. É, isso sim, uma mistura explosiva de técnica e de velocidade. Um prodígio a quem, há um ano, Alex Fergusson fez questão de entregar a mítica camisola sete do Manchester United, orfã desde a saída de David Beckham para o Real Madrid.
O seu sucesso em Inglaterra é já tão grande como em Portugal. Neste Europeu, os adeptos lusitanos aprenderam definitivamente a gritar o seu nome. "Ronaldo! Ronaldo!". Não param de exclamar, à espera de um sorriso, de um aceno, ou, quem sabe, de um autógrafo e de uma foto. Em pouco tempo, conseguiu rivalizar com Luís Figo no primeiro lugar do assédio dos fãs. "É muito bom saber que os portugueses gostam de mim. Guardo esse carinho no coração", garante.
Bom jogo de cabeça
Curiosamente, o estágio final até nem lhe começou bem. Durante e depois do particular com o Luxemburgo, em Águeda, Luiz Felipe Scolari puxou-lhe as orelhas. Mas deu resultado. À medida que o calendário avançou, o seu futebol cresceu. A grande penalidade, infantil, que cometeu na partida de estreia do Europeu, com a Grécia, já está esquecida. Diante da Rússia, tal como toda a equipa, melhorou o rendimento. Mas foi com a Espanha que conseguiu um lugar no onze inicial, numa manifestação clara do seleccionador, que o considera fundamental para empurrar a equipa das quinas para a baliza adversária. Ronaldo chega aos quartos-de-final com um golo marcado, diante dos gregos, fruto do bom jogo aéreo que possui. Aliás, no embate com espanhóis, esteve muito perto de voltar a marcar de cabeça, pois aproveita bem os seus mais de um metro e oitenta de altura.
Cristiano Ronaldo é um produto das camadas jovens do Nacional da Madeira. Deu nas vistas e, apenas com 12 anos, mudou-se para o Sporting. Nessa altura, F. C. Porto e Boavista também lhe acenaram com um contrato, mas o madeirense seguiu o coração e preferiu optar pela camisola que admirou desde criança.
Ao serviço dos leões, continuou a evoluir de tal forma que foi prematuramente chamado à equipa principal por Laszlo Bölöni. E bastou uma época na equipa principal (25 jogos, 11 como titular) para rebentar e suscitar o interesse dos grandes clubes europeus. Os ingleses do Liverpool e os italianos da Juventus chegaram a avançar com propostas para a sua contratação, mas seria o todo-poderoso Manchester United a levar a mais brilhante pérola da academia leonina.
Mais maduro
A inauguração do novo estádio de Alvalade cortou a fita da sua mudança para Inglaterra. Assinou uma exibição notável na vitória (3-1) sobre aquele que acabaria por ser o seu futuro clube. No final desse particular, deve ter sentido as orelhas a arder, pois foi tema de conversa no balneário visitante. E a conversa continuou no voo de regresso a Manchester. Os jogadores não pararam de reclamar a sua contratação junto de Alex Fergusson. Conhecedor profundo das capacidades da jovem promessa - seguia atentamente o prodígio há alguns meses -, deu indicações para a concretização do negócio. Já representado por Jorge Mendes, por troca com José Veiga, assinou por seis anos, numa transferência que rendeu 17,5 milhões de euros aos leões, quantia recorde para a altura. Cristiano Ronaldo passou a ser o primeiro português a actuar pelo emblema de Old Trafford.
Em Inglaterra, depois de uma primeira fase de adaptação, impôs-se com naturalidade. Fez 29 partidas pelo Manchester United. Ninguém esquece a sua estreia. A partida com o Bolton não estava a correr de feição. Ronaldo entrou e tudo mudou. Agitou a equipa e empurrou-a para a vitória. No entanto, o momento alto deste seu primeiro ano aconteceu no final da época, quando marcou o primeiro golo na vitória na final da Taça de Inglaterra, diante do Milwall.
No entanto, esse não foi o único troféu que trouxe quando se apresentou a Luiz Felipe Scolari para o presente estágio. O primeiro ano em terras de Sua Majestade deixou marcas no seu futebol. Está mais maduro. Já não se agarra tantas vezes à bola. Pensa bastante mais no colectivo. Amanhã, na Luz, nos quartos-de-final, vai certamente voltar a entrar em cena desde o primeiro acto. E continuar a construir uma personagem que, não tarda nada, passará definitivamente a protagonista. Sim, porque, ontem, era uma promessa. Hoje, já é uma estrela. E amanhã, com toda a certeza, será uma lenda.
Devoção a Ronaldo divide adeptos ingleses
Os fãs ingleses de Cristiano Ronaldo são tão devotos do jovem português que dizem não saber por quem torcer no jogo de amanhã. Mas têm uma certeza: querem que o prodígio lusitano faça uma grande exibição. Esse é o melhor exemplo da vasta colecção de fãs que conquistou ao serviço do Manchester United. Em apenas um ano, a vida do ex-sportinguista mudou radicalmente. Ainda sem estar totalmente familiarizado com a língua inglesa, não deixa de evidenciar algumas das modas que vingam no Reino Unido. Relógio no pulso direito, pulseira no esquerdo. Um anel em cada mão e um brinco em cada orelha. Adereços sublinhados com um colar ao pescoço. Excêntrico, como os fãs tanto apreciam. Volta e meia, troca de penteado. No decorrer do estágio, já cortou o cabelo, para estar à maneira em caso de apuramento para a final. Ronaldo já não é apenas um jogador de futebol. É um importante produto no "merchandising" do colosso inglês. Em Portugal, também dá a cara em inúmeras campanhas publicitárias. Também por isso, não pode dar um único passo em falso fora das quatro linhas. Os jornais ingleses não o deixam descansado. Contam e inventam histórias sobre a sua vida particular. Uma vez por semana, os "tablóides" arranjam-lhe uma namorada. Ronaldo começar a habituar-se a esse mediático dia-a-dia. E diz que os conselhos dos colegas mais experientes ajudam-no a superar o lado mais difícil de quem é vedeta.
Cristiano Ronaldo
Santos Aveiro
Idade: 19 anos
(5 de Fevereiro de 1985)
Naturalidade: Funchal
Altura: 1,82 metros
Peso: 80 kg
Clube: Manchester United
Posição: Avançado
Internacionalizações: dez (1 golo)
Estreia pela selecção:
20 de Agosto de 2003
(Portugal, 1 - Cazaquistão, 0)
Euro 2004
Jogos: 3
Minutos: 141
Golos: 1
Remates: 4
Assistências: 1
Faltas cometidas: 5
Faltas sofridas: 4
Foras-de-jogo: 0
Cartões amarelos: 0
