ntem, o areal de S. Bartolomeu do Mar, em Esposende, encheu-se com milhares de pessoas que não quiseram faltar à tradição do banho santo, onde as crianças são mergulhadas no mar, em busca da protecção. Vieram de todo o lado, e perante a curiosidade de muitos a fé revelou-se em cada onda "furada" pelas crianças.
Micael, com quatro anos entrou nas águas frias do mar o ano passado. "Não custou muito", disse embora mostrasse agora vontade apenas, depois da promessa cumprida, de ficar "a ver os outros".
Ao seu lado, os dois irmãos mais velhos, com sete e 11 anos, também já tinham mergulhado em busca da protecção do Santo. Talvez porque o pai, José Loureiro, oriundo de Ponte de Lima já vai a esta romaria há 20 anos consecutivos. "Gosto imenso desta festa, acho que é uma tradição muito bonita", justificou.
Também com os pés mergulhados na água pelos tornozelos, juntamente com os filhos, estava João Pereira, vindo do concelho de Barcelos. "Não era a primeira vez" que ali estava, mas apesar de ser um "habitue" e de gostar da tradição dos banhos santos, nunca levou os filhos a mergulhar nas ondas.
"Respeito os outros, mas os meus filhos não levo", disse sorrindo, consciente que "remava contra a maré", pois a fé dos pais que levam as crianças ao banho é enorme.
Era o caso de Maria de Lurdes que embrulhava a filha de três anos numa toalha, depois de esta sair, tremendo com frio, da água "já veio o ano passado e acredito que S. Bartolomeu a protege pois este ano que passou, ela não teve nada de especial em termos de saúde".
Para perder o medo há quem os leve também à água, mas a filha de Helena Cristina, da Póvoa de Varzim, no final dos três mergulhos mostrava que nem seria necessário "foi muito corajosa", disse a mãe orgulhosa.
Muitas das crianças eram mergulhadas pelos próprios progenitores, mas muitos eram os que quiseram cumprir a tradição, que começa logo com as três voltas à igreja com a criança, acompanhada dos pais, a transportar um galo preto.
Depois seguiram em direcção ao mar, onde, como manda a tradição do banho santo, a criança deve ser entregue ao banheiro que as leva perante o olhar atento dos pais, sorrindo a cada mergulho.
As "crianças devem furar as ondas em número ímpar, ou seja, devem mergulhar em três, cinco, sete ou nove ondas", disse o senhor José, o banheiro que ontem, às primeiras horas da manhã, já tinha levado trinta crianças ao colo, mar adentro, para o mergulho "protector".
Com 54 anos de idade, o banheiro já cumpre esta tarefa desde os 17. Muitos anos que o fazem sorrir quando se lhe pergunta se tem ideia a quantas crianças já deu o banho-santo "Sei lá, já lhe perdi a conta", garante enquanto pega numa menina que se prepara também ela para cumprir a tradição.
