"Isto está fechado?" A pergunta repetiu-se, ontem, vezes sem conta, à porta da "Ginjinha" do Rossio, uma pequena e centenária taberna situada no Largo de São Domingos, muito conhecida e referenciada nos roteiros turísticos de Lisboa pela fama do seu licor. Se algumas pessoas já sabiam, pela televisão, que o encerramento se deveu à visita da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), na tarde de quinta-feira, a maioria desconhecia os motivos e mostrava-se "estupefacta" com o fecho de uma casa que "é uma tradição" e "faz parte da história de Lisboa".
Jorge Silva, 47 anos, residente em Aveiro, está de fim-de-semana em Lisboa e, como sempre faz quando vai à Baixa, ontem passou pela "Ginjinha" para beber um licor. Ficou "estupefacto" quando deu com a porta corrida, sem qualquer explicação. "É a primeira vez que vejo isto fechado", dizia.
Confrontado com a justificação da ASAE - falta de condições higieno-sanitárias e técnico-funcionais -, Jorge Silva reconheceu que as condições no estabelecimento pudessem não ser as melhores, mas salientou que "isso faz parte das tabernas". Concorda que a ASAE tenha "uma acção determinada", mas defende que "não deve ser radical, porque isso não leva a lado nenhum".
Júlio Ferreira, 55 anos, dono de um restaurante em Lisboa, não frequenta a "Ginjinha", mas também lamenta o seu encerramento por ser "um símbolo de Lisboa". Ainda assim, concorda com o trabalho de fiscalização da ASAE. "Acho muito bem que, quando não há rigor numa casa, a fechem, para que as pessoas que lá estão tenham noção". Quanto à "Ginjinha", espera que reabra depressa, porque "faz falta à cidade e ao turismo".
Inconformados com o encerramento estão os dois engraxadores que, todos os dias, trabalham em frente ao estabelecimento. Admitem que nem tudo no interior da taberna estivesse "como manda a lei", mas defendem que a ASAE devia ter feito um aviso e dado um prazo aos proprietários para corrigir as situações irregulares. "Não havia necessidade de fechar", defende Paulo Oliveira, garantindo que vários grupos de turistas deram ontem com o nariz na porta.
"Sacristia" também fechou
O colega de ofício Jorge Henriques, 45 anos, garante que o negócio já se está a ressentir. Quem vai à "Ginjinha" aproveita o tempo para "dar uma engraxadela aos sapatos", dizem, lembrando que, além de ser "uma tradição", a tasca é também "ponto de encontro" para quem vai à Baixa.
Tendo ouvido a notícia na televisão, Fernando Cardoso, residente em Loures, decidiu ir à Baixa para garantir que se continua a poder beber ginja e comer "pipis" nas tascas típicas da zona. Deu com a "A Sacristia" fechada - uma tasca situada ao lado da Igreja de São Domingos, também por ordem da ASAE - mas conseguiu matar saudades da "ginja com elas" na tasca à entrada da Rua das Portas de Santo Antão, agora bem mais concorrida do que antigamente.
