Quando o F.C. Porto e o Vitória de Setúbal entrarem amanhã no relvado no Estádio do Dragão, haverá um ou dois jogadores na equipa sadina que pertencem aos quadros do clube portista. Bruno Gama e Cláudio Pitbull são apenas dois dos 33 atletas que os dragões têm emprestados a outros emblemas na presente época, numa estratégia que tem sido seguida por vários clubes nos últimos anos, mas que tem o expoente máximo no F.C. Porto.
Das 16 equipas que competem actualmente na Liga portuguesa, apenas duas não têm nos plantéis jogadores emprestados por outros clubes. Naval e Paços de Ferreira são as excepções a uma regra que ganha contornos polémicos sempre que há um jogo importante em que um futebolista cedido tem de defrontar a "casa-mãe". No caso do F.C. Porto, isso acontece em dez das 30 jornadas do campeonato, uma vez que os dragões têm 12 jogadores emprestados a cinco equipas da Liga (Gama e Pitbull no Setúbal; Alan e Rabiola no Guimarães; Ivanildo e Hélder Barbosa na Académica; Luís Aguiar e Fernando no Estrela da Amadora; Ezequias, Paulo Machado, Vieirinha e Diogo Valente no Leixões).
No total, os portistas têm mais atletas cedidos na Liga do que todos os outros clubes juntos, numa política de distribuição dos excedentes que não é seguida pelos grandes rivais. O Sporting põe a rodar os jovens sem lugar no plantel que saem da academia da Alcochete em equipas dos escalões secundários nacionais, como o Estoril, o Olivais e Moscavide ou o Portimonense, enquanto o Benfica prefere colocar quase todos os jogadores dispensados no estrangeiro, em países como Grécia, Inglaterra ou Espanha.
"A cedência de jogadores está regulamentada e é uma possibilidade que assiste aos clubes, mas tem de ter sempre a concordância dos atletas. Tem a vantagem de permitir que jogadores menos utilizados ganhem competitividade e se possam valorizar do ponto de vista desportivo", afirmou, ao JN, Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato de Jogadores, que não vê entraves à utilização de futebolistas nos jogos com as equipas que os emprestam. "Não faz sentido que não possam jogar ou que haja restrições. No entanto, as cedências têm de ser vistas caso a caso. Por exemplo, já não concordo com a compra mercantilista de jogadores, que depois são emprestados, apenas para não deixar que outros clubes os vão buscar. Nestes casos, parece-me que há clubes com mais olhos do que barriga...", referiu Evangelista.
A partir da temporada passada, passou a registar-se em Portugal um fenómeno alternativo no empréstimo de jogadores, cujos passes pertencem a empresas como a Inverfutbol, que depois os cedem aos clubes. O Beira-Mar foi o primeiro exemplo da nova realidade, mas esta época o maior cliente deste processo é o Boavista, que possui no plantel quatro atletas ligados à empresa espanhola (Diakité, Olufemi, Gajic e Bosancic).
Apesar do esforço feito no último defeso para reduzir o número de jogadores ligados contratualmente ao clube, o F.C. Porto continua a ser a equipa portuguesa com mais jogadores emprestados. Para além dos 12 que estão c edidos a equipas da Liga portuguesa, os dragões têm outros quatro atletas a rodar no estrangeiro - Sonkaya (Roda), Lucas Marque (Independiente), Ibson (Flamengo) e Renteria (Estrasburgo) - e quase duas dezenas em clubes que competem nos escalões secundários nacionais, neste caso com o objectivo de lhes dar experiência ou rodagem competitiva, embora seja difícil que a esmagadora maioria deles venha a vestir um dia a camisola azul e branca. Relativamente aos jogadores que estão no estrangeiro, trata-se mais de um processo de colocação de excedentes, ou seja, de jogadores que estiveram no plantel mas que não conseguiram convencer Jesualdo Ferreira. Isso não quer dizer, no entanto, que não possam voltar ao clube e ter sucesso ao serviço do clube das Antas, como está a acontecer este ano com Tarik Sektioui. Recorde-se que o internacional marroquino foi emprestado na época passada pelos dragões aos holandeses do RKC, mas regressou ao F. C. Porto na pré-época para fazer o estágio e acabou por ganhar um lugar de destaque no plantel dos bicampeões nacionais. NA
