É já amanha que estreia "dot.com", uma comédia social que pode contribuir para os espectadores fazerem as pazes com o cinema português. Não por acaso, o seu realizador, Luís Galvão Teles, garante ter pretendido fazer um filme que estabelecesse um diálogo com os cidadãos comuns, abordando temas nos quais uma larga camada da população portuguesa pudesse rever-se de imediato.
Numa pequena aldeia no Interior do país, a população anseia por uma estrada nova. O engenheiro que está a projectá-la dinamiza um 'site' que promove a localidade. Mas os espanhóis têm uma água mineral com o mesmo nome e querem o exclusivo na 'web'. Para isso, mandam uma enviada para obrigar a população a fechar o 'site'. Mas não vai ser fácil? É o mais recente filme de Luís Galvão Teles, uma comédia social, muito portuguesa e com muitos elementos para nos identificarmos. O filme estreia amanhã, depois de uma primeira projecção em Dornes, onde foi filmado, com a presença do presidente da República.
Jornal de Notícias | O seu filme aborda a dicotomia entre o "velho" e o "novo", um pouco na linha do clássico "Aldeia da roupa branca". Como pode encontrar-se esse equilíbrio?
Luís Galvão Teles| A resposta está intrínseca no filme, na narrativa e nas personagens. Há coisas boas no velho e vice-versa. Precisamos é de encontrar o caminho, com a nossa própria cabeça. Não há nenhum sentido passadista, mesmo que seja para aproveitar as coisas antigas, é para reinventá-las em função do futuro.
Os seus primeiros filmes, a seguir ao 25 de Abril, eram o que na altura se chamavam de "intervenção". Embora com um estilo próprio, este é de novo um filme de intervenção?
Fico tocado quando diz isso. Acho que é profundamente verdade e nem sequer tinha reflectido no filme dessa maneira. Procuro estar sempre do lado das pessoas, da sua interioridade, da sua humanidade. O nosso sonho no 25 de Abril era exactamente transformar a vida das pessoas. Nesse sentido mais aberto, sim, é um filme de intervenção.
Quais foram os factores da escolha de Dornes, que acaba por se transformar numa autêntica "personagem" do filme?
Já tinha ouvido falar de Dornes, mas nunca lá tinha ido. Quando lá cheguei, era exactamente aquilo que andava à procura. É uma aldeia relativamente pequena mas tem bastante força e é muito alegre. Precisava desse lado vivo das personagens. E acredito que existe alguma coisa de mágico naquele sítio. Há quem pense que há um espírito qualquer que habita o local e que atrai as pessoas.
Quais os primeiros ecos dos habitantes de Dornes em relação ao filme?
São muito tocantes. Houve pessoas que me disseram que foi o melhor momento das suas vidas, que choraram quando viram a aldeia no ecrã. Ficaram todas maravilhadas. Só houve uma pessoa, em casa de quem filmámos, que me disse que quando começou a ver o filme, não estava a gostar nada. Mas depois, no fim, gostou tanto? Isto é tão português, é tão lindo. Para mim também, mostrar o filme lá pela primeira vez foi uma experiência lindíssima. Foi como dar de volta o que as pessoas me deram.
O filme não transmite uma ideia lá muito lisonjeira dos espanhóis. Como conseguiu convencê-los a co-produzir um filme como este?
Eles têm a perfeita consciência do que era o filme. Acho que as fronteiras, na Europa, já acabaram. Cá em Portugal, ainda estão muito nas nossas cabeças, porque tivemos isso muito marcado. É claro que existem fenómenos económicos de agressão em relação aos quais as pessoas reagem. Mas a campanha no filme não é chauvinista, não é contra Espanha, é contra quem nos quer pôr o pé em cima. Há uma personagem que diz mesmo, "quero lá saber dos espanhóis, não quero é receber ordens de Lisboa".
O filme lança também um olhar crítico sobre a classe política portuguesa.
É contra o aproveitamento e a manipulação das coisas. Também em relação à comunicação social. Muitas vezes as situações e os acontecimentos são manipulados para servir a propaganda do partido ou pela necessidade dos grandes acontecimentos. A vida normal das pessoas não interessa muito à comunicação social, nem interessa muito à política.
O filme vai chegar agora às salas. De que modo pode contribuir para quebrar uma barreira que teima em existir entre o público e o cinema português?
Sinceramente não sei como vai funcionar. O filme tem essa acessibilidade de linguagem, é directo e fala das pessoas normais. O que me interessa não é o êxito pelo êxito, mas sim que o filme estabeleça um diálogo com as pessoas que vão vê-lo. Faço filmes para falar com as pessoas que vão ao cinema. É a minha maneira de conversar com as pessoas, de lhes contar o meu mundo, o meu imaginário.
