Dois filmes antigos, projectados pela Câmara de Matosinhos, devolveram memórias esbatidas aos idosos do Lar do Comércio, em Leça do Bailio. Entusiasmados, muitos confundiram a abordagem jornalística com a volta triunfal de um político, a colher louros e distribuir beijinhos. "Muito obrigado". Coisas do entusiasmo geriátrico. "Ninguém dormiu", disse Emília Oliveira, a falar com uma pressa de quem já muito caminhou. "Ninguém dormiu, estive a ver". Por desatenção ou solidariedade entre homónimas, não viu que, do outro lado da coluna, Emília de Vasconcelos cedeu momentaneamente ao sono, que bateu à porta sem saber da tarde gazeteira à sesta. "Do que vi, gostei muito", disse. "A gente gosta é disto, de ver coisas antigas, do nosso tempo". Nascida no Porto, em 1921, então a distantes sete quilómetros de Matosinhos, só aos 86 anos ficou a saber como se fez o porto de Leixões, na história contada por um filme mudo, de 1928, mas que deu que falar. "Na altura, não havia dinheiro para ir a lado nenhum". Ana Rosa Santos ficou particularmente encantada com o segundo filme, de 1948. "Assim é Matosinhos", conta a faina da fauna matosinhense, fala da obra prometida pelo Estado Novo e enaltece a já erigida, com o pormenor de contar os 1625 paralelepípedos usados para calcetar uma avenida. "Gostei muito da lembrança das fábricas de conservas, eu que gosto tanto daquelas latinhas de sardinhas", disse Ana Rosa. No filme, narrado por Pedro Moutinho, anuncia-se a construção de "um moderno mercado" e o fim das tragédias na praia à chegada dos pescadores, com a construção da actual lota. "Gostei de tudo, foi muito bonito ver como foi feito", disse Maria do Carmo, natural de S. Mamede de Infesta, da mesma Rua de Godinho Faria onde nasceu Ana Rosa Santos, no mesmo ano de 1927. Quis o destino que se encontrassem, nos "entas" da vida, no Lar do Comércio, a dois passos das danças imemoriais na ponte de pedra, sobre o rio Leça, em Santana. "Lembro-me das vendedeiras de peixe, com as canastrinhas à cabeça", conta Maria do Carmo, que mantém presente o dia em que o comboio encurtou as duas horas de caminho entre S. Mamede e Matosinhos. "No Senhor de Matosinhos, começávamos a dançar no comboio e era a noite toda", conta Ana Rosa, dando sentido às palavras de Emília de Vasconcelos "Recordar é viver". Também, sorrir. "Saudável desde nascença", no Porto, Maria Benadina Costa junta à conversa um segredo de 89 anos. "Levo a vida a rir", contou. "Valeu a pena esta iniciativa", disse Judite Maia Moura, da direcção do Lar do Comércio, onde as palavras dos mais velhos reescrevem a história matosinhense, das estrofes salgadas, do mar e das lágrimas, de António Nobre ao suicídio desse fogo de mulher que foi Florbela Espanca. "O povo foi mau. Foi mais por dizer que andava metida com o irmão que se matou", contou Rosa. "A verdadeira história é contada pelas pessoas que a viveram", disse Judite, pedindo emprestadas ao amigo Nadal Rey as palavras de poeta. Augusto Correia
