Novela "América" alerta para riscos da emigração clandestina
Rede Globo aposta em mais um argumento de Glória Perez, autora conhecida por tratar de questões sociais polémicas As dificuldades de integração dos deficientes é outro dos temas em destaque
OBrasil é o segundo país no número de emigrantes ilegais que tentam atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos. Por dia são ali detidas 51 pessoas - menos que no Rio de Janeiro -, cerca de um terço das que tentam alcançar o "sonho americano". Mas o que elas desconhecem são os riscos que correm ao colocar-se nas mãos de redes organizadas que os maltratam e exploram, das dificuldades da travessia e, quando bem sucedida, a chegada a um país onde têm grandes dificuldades de integração.
A emigração clandestina foi o tema central escolhido por Glória Perez para a nova telenovela da Globo, que vai ocupar o horário nobre - das oito - no Brasil, a partir do dia 14, em substituição de "Senhora do destino". O seu lançamento decorreu, anteontem, nos estúdios Projac, no Rio de Janeiro. Para a sua exibição na SIC, também já não tarda muito.
Habituada a trazer o debate sobre determinadas questões para o enredo das novelas que escreve - a última exibida em Portugal abordava a questão da clonagem - a autora idealizou para a personagem principal (interpretada por Deborah Secco, a Darlene de "Celebridade") uma história sobre uma rapariga - Sol - cujo sonho é partir para os EUA em busca de uma vida melhor. "Acho que ao contar uma história onde um personagem passa por isso, estou de alguma forma a alertar a pessoas" contou a autora aos jornalistas.
Deborah Secco, por seu lado, explicou que durante a preparação da personagem ouviu relatos de travessias bastante difíceis. "Por muito que se tente, só quem passou mesmo por esta situação a consegue relatar com realismo".
Também a personagem Consuelo, papel de Cláudia Jimenez, é afectada pelo drama daqueles que fazem "a travessia". Neste caso, ela aguarda a entrada ilegal das filhas que se lhe devem reunir em Miami. "Em Juarez, um lugar onde as pessoas param durante a passagem, matam e violam mulheres. Já morreram mais de 300. E quando a personagem sabe que as filhas passam por lá fica angustiada", disse.
A actriz reconhece que antes da preparação para este trabalho não se tinha apercebido do que realmente acontecia a estas pessoas, tal como a grande maioria dos brasileiros. "Eles não têm noção do que vão encontrar, seguem um sonho mas não sabem o que vai acontecer.
Já Thiago Lacerda e Betty Faria dão vida àqueles que exploram os clandestinos. O primeiro aproveita a fragilidade destes para "se dar bem". A segunda lidera uma rede responsável pela deslocação.
Debate nacional
Além da emigração, o trabalho de Glória Perez aborda ainda mais três questões. As dificuldades de integração dos deficientes, o mundo dos peões e dos rodeios e a vida após a morte. No primeiro será Marcos Frota a dar vida a um cego que quer ter uma vida independente e que vai alertar para questões como a falta de oportunidades de trabalho e as barreiras arquitectónicas.
"Vamos aproveitar este espaço para que os deficientes reivindiquem o tipo de legislação que precisam", adiantou a argumentista. Congratulando-se por ter sido a primeira autora a introduzir o debate social nas telenovelas brasileiras. "Para mim, faz parte do meu trabalho. Mas não acho que um autor deva necessariamente seguir o exemplo. A novela é diversão e se não se fizer isso não quer dizer que seja menos boa, pode até ser melhor que a minha. Porém, fico contente por haver mais pessoas a utilizar a novela para prestar serviços".
As outras duas questões serão protagonizadas pelo mesmo personagem. Tião (Murilo Benício que desempenha o par romântico com Deborah Secco) é um peão que, segundo a autora, vai mostrar a simplicidade da vida no campo e da relação estrita com os animais. Apesar de a autora negar que se trate de uma questão polémica, esta tem sido alvo de críticas por parte dos defensores dos direitos dos animais. Alguns mais extremistas chegaram mesmo a entupir o seu correio electrónico com mensagens que aludiam ao assassinato da sua filha Daniella (tens de confirmar na net a data). O caso foi entregue às autoridades policiais e teve já como efeito imediato a eliminação no texto de personagens que representavam os defensores dos direitos dos animais.
É ainda Murillo Benício que viverá uma experiência de "quase morte" e esta é sim, no entender de Perez, o assunto mais polémico deste trabalho. "Não vamos dar respostas, mas levantar a discussão", sublinhou.
