Ocandidato pelo Partido Socialista à Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, usou, há dias, uma expressão curiosa para caracterizar dois tipos diferenciados das personagens que se estão a perfilar para concorrer às eleições intercalares da autarquia da capital. Os candidatos que representam partidos são vistos como os "impuros"; os que se apresentam como independentes são os "puros". Logicamente, feita esta dicotomia, António Costa recusava-se a aceitá-la. Mas confessava que era esta a formulação que, de algum modo, propalada ou não pelos independentes concorrentes, estava a ser passada para a opinião pública.
É por estas e por outras razões que as próximas eleições por Lisboa vão tomar uma transcendência nacional. Podem desde já os socialistas e os politicólogos insistir que estas eleições são autárquicas. São para o círculo de Lisboa, sem vencimento para efeitos de plebiscito sobre o Governo ou a maioria que, neste momento, detém a conduta do país. Todos os outros partidos, como já se notou nos primeiros ensaios de pré-campanha, vão contrariar essa tese. E não só, vão conduzir toda a campanha sob este ditame, como perspectivam poder vir a fazer a leitura dos resultados por esse prisma. Vão repetir a versão abstrusa com que interpretaram os resultados desse caso muito específico e incontornável da vitória de Alberto João Jardim, na Madeira, ele próprio muito acima do partido, a quem dá votos.
Nem vale a pena esconder. É este temor, ou para evitar esse desfecho, que justifica a decisão de José Sócrates ao prescindir de o "número dois" do Governo para "emprestá-lo" ao sufrágio dos eleitores por Lisboa.
A situação actual de Lisboa e do país e, sobretudo, a inferência que se pode tirar do sentimento da opinião pública do que se tem passado na Câmara da capital dão força à tese esboçada por António Costa. Pressente-se, numa certa auscultação do sentir popular, que a decepção, neste momento, não é só do partido A ou B. É contra os partidos.
Este acto eleitoral não vai ser só um plebiscito ao Governo ou à sua maioria. Será uma campanha e uma eleição na linha da visão antecipada por António Costa. Obviamente, o ex-ministro tem razão em declarar que rejeita a perspectiva daqueles que fazem uma leitura maniqueísta de ver nos candidatos partidários os impuros e nos independentes os puros.
Indubitavelmente para bem da democracia é preciso rejeitar e contrariar essa ideia. Não são "impuros" os candidatos partidários concorrentes a Lisboa. Aliás, na vida pública, hoje, não há "puros". Sujeitos como estão ao escrutínio dos media e da opinião pública, logo aparecem relevados os "pecados" e esquecidas as "virtudes". Mas esta será também, na designação utilizada por António Costa, uma luta entre os "impuros" e os "puros". E também por isto, as eleições de Lisboa vão assumir a feição de um certo plebiscito nacional.
E embora os partidos sejam sempre uma força com mais meios humanos e financeiros para pugnar pelos seus candidatos, talvez fosse aconselhável não desdenhar a premonição do candidato socialista, pois essa não atingirá apenas o P. S. A luta em que vão envolver-se na campanha será decisiva. E não parece que a democracia venha a lucrar com o digladiar partidário que já se cheira por essa Lisboa. E por Lisboa, são poucos os que se podem considerar impolutos. Muito menos seria feliz a actuação dos independentes se dirigissem a sua campanha nessa perspectiva de puros e impuros. Espera-se que tragam um discurso e uma estratégia, isso sim, puros.
Como quer que seja, fica desde já à vista que o ordenamento legal destes actos eleitorais terá de ser alterado. Sujeitar Lisboa e a vida dos lisboetas a dois meses de pré-campanha e campanha é um contratempo inadmissível nos nossos dias. Veja-se o exemplo que veio de França. O presidente eleito tomou posse na semana seguinte, nomeou o Governo e começaram a trabalhar. Em Portugal, todo este tempo é um atraso de vida. E, seja qual seja o seu desfecho, este lento decorrer vai fazer muitos estragos.
Paquete de Oliveira escreve no JN, semanalmente às quintas-feiras
