Há quem diga que foi uma espécie de "cena teatral" as 13 pessoas que se barricaram, desde domingo, no Teatro Rivoli, no Porto, acordaram ontem, às seis da manhã, com um extenso corpo policial, hirto, no palco do pequeno auditório do equipamento municipal. "Têm cinco minutos para arrumar as vossas coisas e sair. Se colaborarem não haverá problemas", foi-lhes comunicado.
Ninguém ofereceu resistência, sendo o grupo de ocupantes levado para a esquadra da PSP de Monte Aventino, onde foram ouvidos perto das 8 horas e de onde sairam com termo de identidade e residência. Hoje de manhã, serão todos novamente ouvidos no Tribunal da Pequena Instância Criminal do Porto, uma vez que a Câmara - que concertou a intervenção policial durante a tarde de anteontem -, apresentou ao Ministério Público uma queixa-crime contra os manifestantes.
Menos de meia hora depois da expulsão, o Rivoli estava irreconhecível despido dos despojos da intensa circulação dos últimos dias e dos cartazes que foram sendo colocados nas portas do edifício. Restavam, apenas, alguns agentes da PSP. Um deles confirmou, ao JN, que "a operação envolveu perto de cem polícias, para que nada pudesse fracassar", recusando, no entanto, esclarecer o motivo para a hora escolhida: "Terá que perguntar à Câmara. Houve muitos telefonemas nos últimos dias até ser tomada esta decisão".
Na rua restavam também alguns "ocupas do exterior" a arrumar os cobertores onde tinham dormido. Mariana Rodrigues, 16 anos, recapitula, ainda incrédula, a operação. "A Polícia chegou às 5.50 horas, acordou-nos e afastou-nos, vedou o perímetro inteiro, parou o trânsito e só depois entrou no edifício. Contei, pelo menos, oito carrinhas".
Francisco Alves, do Teatro Plástico, um dos mentores do movimento de reclusão voluntária para contestar a concessão da gestão cultural do Rivoli a entidades privadas, conta a versão do interior. "A Polícia entrou por todas as portas do Teatro. Leu os nossos direitos e confiscou-nos os telemóveis, devolvendo-os posteriormente".
A intervenção policial limitou-se a antecipar uma saída que já estava decidida pelos ocupantes. Anteontem, às duas da manhã, Saguenail, marido da ocupa Regina Guimarães, foi ao Rivoli entregar um manuscrito que continha a declaração lida ontem, às 20 horas, na manifestação (ver texto ao lado). Antes de abandonar o recinto, pediu ainda que alguém levasse ao Teatro um médico de clínica geral. "Ninguém está doente, mas é um direito que eles têm". Não chegou a ser necessário beneficiar dele.
Em liberdade, o grupo de ocupantes, que já têm a garantia de que a ministra da Cultura irá recebê-los na próxima semana, não foi descansar. Reuniu-se num café, imediatamente a seguir à saída da esquadra, para definir novas formas de luta. "Não quero dormir", sublinhou Regina Guimarães. "Se achasse que a luta não irá surtir efeito não lhe dava continuidade".
Entretanto, o movimento "Pelo Porto - Juntos no Rivoli" pediu a demissão do vereador da Cultura, Fernando Almeida - figura totalmente invisível neste processo -, acusando-o de "incompetência política" e "insensibilidade cultural e humanitária".
A privatização do Rivoli e a recente actuação do Executivo será discutida na terça feira, na reunião pública da Câmara.
