Piscinas das Marés
Refúgio entre as rochas
Aagitação não pára. Dezenas de crianças e adultos mergulham uma, duas, 20 vezes seguidas. Falam alto, gritam sem se cansarem. Ali ao lado, abrigados de olhares indiscretos da rua, outras tantas pessoas estendidas sobre a areia, debaixo de guarda-sóis ou não, aproveitam mais um dia de férias ao sol. Não, não estamos numa praia. Mas quase. É a Piscina das Marés, em Leça da Palmeira, Matosinhos, uma obra-prima do arquitecto Siza Vieira, que 40 anos depois continua a atrair centenas de veraneantes por dia.
Escondidas entre as rochas, com vistas privilegiadas sobre o mar, as duas piscinas, (uma só para crianças) de água salgada são uma alternativa às várias praias que se estendem ao longo do concelho de Matosinhos. O espaço pertence à Câmara, mas está a ser explorado e promovido pela empresa Serurb.
Situadas entre a praia dos Beijinhos e a praia de Leça, as Piscinas das Marés passam despercebidas a quem conduz ou passeia na marginal leceira. De facto, o perfeito enquadramento dos dois tanques na paisagem é um dos sucessos da obra. A água salgada que enche as piscinas provém de um poço com 30 metros de profundidade e o tratamento e controle de qualidade ficam a cargo da autarquia matosinhense.
Massagens e aulas de yoga
O equipamento municipal é servido por um bar (com acesso grátis) e uma zona de sombra. Nesse espaço, revestido por lonas, há equipamento de som e televisor. No próximo mês, devem começar as sessões de massagens, conforme adiantou, ao JN, Ricardo Pinho, responsável da Serurb.
Para tornar o espaço ainda mais atractivo, a empresa - que também explora a piscina da Quinta da Conceição - vai dar início a aulas de introdução ao mergulho. O "baptismo" de mergulho tem a duração de cerca de meia hora e custa dez euros. A primeira aula é precisamente hoje. Também aos sábados, pelas 19 horas, decorrem na pequena praia junto às piscinas aulas de yoga gratuitas. "Funcionam depois de fecharmos as instalações para que as pessoas possam aproveitar o silêncio enquanto estão em contacto com a natureza", explica Ricardo Pinho.
Na Piscina das Marés, os utentes podem alugar espreguiçadeiras, guarda-sóis e paraventos ( 1,50 euros cada) e colete salva-vidas (1 euro). Dentro em breve, a Serurb conta poder alugar também fatos de banho para ninguém ser apanhado "desprevenido".
Telmo Barros resolveu dizer não ao percurso de vida que muitos escolhem. Licenciado em Economia, rejeitou a ideia de ficar fechado num gabinete de casaco e gravata, casar-se logo após o curso e endividar-se a 40 anos na compra de uma casa. Preferiu manter-se em contacto com a natureza, principalmente o mar, que o atrai desde pequeno. Há dois anos que é nadador-salvador na Piscina das Marés, em Leça da Palmeira. Um emprego sazonal que, no resto do ano, completa com aulas de snowboard nos Pirenéus espanhóis.
Enquanto fala, Telmo não tira os olhos dos banhistas, ainda que esteja um colega a assegurar a vigilância. Passa 13 horas por dia na piscina, três das quais a fazer a limpeza. Um serviço que serve, ao mesmo tempo, de treino, pelo esforço físico que os constantes mergulhos implicam. As outras dez horas são passadas de olhos e ouvidos bem abertos, intercalados por recomendações de segurança a adultos e crianças. "Se fecharmos um bocadinho os olhos só ouvimos os miúdos a gritar. E não podemos partir do princípio que estão só a brincar", refere Telmo, consciente de que "o número de utentes na psicina não é indicativo do número de problemas que podem acontecer".
Os dias mais complicados são aqueles em que os miúdos não vêm acompanhados. É preciso dizer e repetir, vezes sem conta, para não saltarem, não correrem na borda da piscina, não subirem às rochas. Ainda assim, são frequentes as escoriações.
"Temos de ter uma atitude preventiva para evitarmos situações mais complicadas do que estamos à espera. Prefiro ser o chato que não deixa os miúdos saltar, a ter problemas mais graves", frisa Telmo Barros.
Mas os adultos também dão trabalho aos nadadores-salvadores. "No ano passado um senhor não viu as placas que indicam a profundidade da piscina e saltou para a parte funda sem saber nadar", recorda Telmo, escolhido pela Serurb (empresa que explora o equipamento) pelo currículo, mas também pelo perfil.
A vigilância na Piscina das Marés é feita diariamente por dois nadadores-salvadores e por uma equipa de seguranças que zela pela ordem no recinto, todos os dias, desde as 9 horas às 19 horas.
