"Oferry-boat ainda não acostou definitivamente ao cais. Mas já tenho saudades das viagens até Goyan". Na zona de embarque, José Guerreiro, o maquinista do "S. Cristóvão", já começou a contar os dias até à inauguração da Ponte da Amizade, que irá unir as duas regiões transfronteiriças. No próximo dia 11, a festa terá sabor a progresso. E a nostalgias.
Demorou tempo de mais o arranque da obra, nem sempre as outras pontes da cooperação e da entreajuda souberam estar à altura do acontecimento, mas o contra-relógio funcionou: no último dia da campanha eleitoral para o Parlamento Europeu e nas vésperas do Euro 2004, o primeiro-ministro de Portugal, José Manuel Durão Barroso, e o presidente da Junta da Galiza, Fraga Iribarne, darão as mãos para inaugurar a nova ponte sobre o rio Minho.
Em tempo: a primeira fase dos acessos estão praticamente concluídos, mas restam as obras da segunda fase, ou seja, as ligações entre a novíssima ponte e a EN 13 (Viana do Castelo/Valença). O Instituto das Estradas de Portugal (IEP) já deu luz verde ao estudo prévio, restam os estudos de execução e o lançamento do concurso público que, na melhor das hipóteses, deverá ocorrer em 2005.
"Arrancada a ferros"
"Foi uma obra arrancada a ferros. Mas valeu a pena a teimosia e o esforço", resumiu José Manuel Carpinteira, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira.
O JN já efectuou a travessia da nova infra-estrutura. Por entre poeiras, um calor sufocante e um ritmo frenético (trabalha-se praticamente de sol a sol na empreitada) cerca de 70 operários dão os últimos retoques na ponte. Colocam os lancis nos passeios de acesso, instalam os candeeiros de iluminação pública, mais os railes de protecção. E, facto inovador, concluem a montagem de 73 bancos de granito ao longo dos 430 metros de extensão, de forma a que ponte não sirva, apenas, para a circulação automóvel mas seja, igualmente, local de passeio e convívio entre as duas comunidades.
"A ponte ainda não foi inaugurada, mas já muita gente vem a pé admirar a obra. Quando as noites estão quentes, os passeios enchem-se de gente. Às vezes, até parece uma romaria", sublinhou um habitante de Vila Nova de Cerveira.
Sem tempo a perder para conversas, os trabalhadores do consórcio esforçam-se por concluir, a tempo e horas, as diferentes fases dos acessos à ponte. Assim, prevê-se nesta semana a colocação da última camada no tapete asfáltico, bem como a remoção da capela mortuária do cemitério local, já que a sua localização colide com os acessos à ponte. Esta semana, os operários vão, ainda, procurar embelezar os separadores centrais da rotunda, colocar os sinais luminosos que faltam, retirar os ferros, entulhos e materiais do estaleiro. "A obra está no fim. No dia 11 tudo estará no seu lugar. Estamos a preparar o palco para a festa", disse, ao JN, uma fonte ligada à empreitada.
Vestígios a preservar
Orçada em cerca de seis milhões de euros, a "concretização deste sonho", como lhe chamou o autarca de Vila Nova de Cerveira, demorou cerca de 15 anos, já que, os primeiros estudos começaram em 1989. Para além dos tradicionais avanços e recuos da obra, a sua inserção paisagística e arquitectónica foi afectada face ao aparecimento de vestígios de natureza arqueológica.
Do lado português, houve condicionalismos devido à proximidade do forte de Lovelhe, e em Goyan, na Galiza, à localização de um castro, que provocou escavações arqueológicas e minucioso acompanhamento técnico. "Foi um processo complicado, mas o IEP teve sempre em permanência um especialista em arqueologia. A empreitada foi acompanhada a par e passo. Por isso, o projecto foi objecto de algumas alterações tendo em vista salvaguardar e proteger o património", elogiou José Manuel Carpinteira.
Com a abertura da Ponte da Amizade, o "ferry-boat" tem os dias contados. Até Agosto continua, depois das férias se verá qual o seu destino. "Poderá servir de palco à realização de eventos turísticos", concluiu o autarca de Cerveira.
Ao leme da "S. Cristóvão", o piloto da embarcação já só teme "perder os amigos" que conheceu ao longo de 17 anos. "Tenho de ficar conformado com a situação. É a vida", diz.
José Guerreiro
mestre da embarcação
Memórias do "ferry-boat"
José Manuel Fernandes
marinheiro
Joaquim da Purificação
bilheteiro
Acessos à ponte do lado de Espanha foram concluídos a tempo.
Modesto Cunha
marinheiro
Projecto aproxima dois países
A nova ponte sobre o rio Minho foi projectada pelo eng.º Jorge Perloiro
Com a inauguração da ponte internacional entre Vila Nova de Cerveira e Goyan, as ligações através do "ferry-boat" têm os dias contados. Após as férias de Agosto, o " S. Cristóvão" ficará atracado nas margens do rio Minho e em terra ficam cerca de 10 pessoas, a maioria das quais com vínculo laboral à autarquia. Quanto ao futuro da embarcação, o presidente da Câmara admitiu, ao JN, manter-se empenhado em "encontrar um equilíbrio" entre a manutenção da estrutura e a sua rentablidade. "Ainda não temos uma posição definida, mas vamos procurar encontrar uma solução que salvaguarde o investimento realizado. Como a embarcação não está preparada para efectuar cruzeiros no rio e a substituição dos motores é uma operação bastante dispendiosa para os cofres da autarquia, o Executivo irá, provavelmente, utilizar a estrutura como pólo de lazer e de animação turística. É uma hipótese em estudo. No rio Douro e em muitos países da Europa, existem velhos barcos transformados em centros de diversão nocturna. Vejo com bons olhos essa possibilidade", concluiu.
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[Jornal de Notícias] O que vai dizer ao primeiro-ministro na cerimónia de inauguração da ponte: vai exigir mais apoios para o concelho, ou reivindicar a construção da 2ª fase dos acessos à ponte?
[José Manuel Carpinteira] Ambas as coisas. Mas os acessos são fundamentais para promover o desenvolvimento local e descongestionar a malha urbana. O estudo prévio já está pronto, mas falta o projecto de execução e o lançamento do concurso. Gostava que o Governo fizesse avançar a empreitada e que, em 2005, as acessibilidades ficassem completamente prontas.
Voltando à Ponte da Amizade, é sabida a existência de diversos obstáculos à sua construção. Foi muita complicada?
De certa maneira foi. O processo começou em 1989, mas só em 1994, ou seja, cinco anos depois, é que os governos de Portugal e de Espanha decidem, numa cimeira avançar com o processo. Mas só em 1997 é que foi assinado o compromisso de construção da ponte.
Em parte devido à pressão exercida pelas câmaras de Cerveira e Tominho. É verdade que foram as duas autarquias que contrataram o projectista e suportaram os custos do projecto?
Sim. Como o Instituto das Estradas de Portugal (IEP) e o Governo nunca mais desatavam os nós do projecto, as duas autarquias uniram esforços e suportaram os seus encargos.
Depois, o IEP deu luz verde aos estudos e abriu o concurso público internacional. Resumindo: o primeiro passo foi reivindicar, o segundo elaborar o projecto. O importante é que o sonho acaba de ser cumprido.
E o IEP limitou-se a aprovar o projecto. Foi isso?
Sim. O IEP não tinha outra alternativa, já que o projecto é muito bonito.
A ponte deixou de ser uma miragem e transformou-se numa mais-valia para o Alto Minho.
Por outro lado, vai estreitar ainda mais os laços históricos, comerciais e culturais já existentes entre as regiões transfronteiriças de Portugal e de Espanha.
"O sonho acaba de ser cumprido"
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