O mais alto galardão literário de língua portuguesa premiou a autora de obras como "Ciranda de Pedra" e "Antes do baile verde" "Critérios políticos" de atribuição questionados pela União de Escritores Angolanos
Detentora de uma longa carreira literária, iniciada em 1938 com o livro de contos "Porão e sobrado", Lygia Fagundes Telles venceu a 17ª edição do Prémio Camões, o mais elevado galardão literário de língua portuguesa, no valor de 100 mil euros.
O mistério e o fantástico são facetas indissociáveis da obra desta autora paulista - nascida há 82 anos - que, apesar das incursões frequentes pelo romance, encontra nos contos o seu território predilecto. Mas, acima de qualquer catalogação, Lygia Fagundes Telles define-se como uma ficcionista, embora ressalve que "invenção e memória se misturam muito".
Nos 17 livros que já publicou, entre os quais figura "Ciranda de pedra" (1981), o seu maior êxito, encontra-se o mesmo apelo para um entendimento mais exacto da condição humana. Exemplo flagrante disso mesmo é o romance "As meninas", escrito em plena ditadura militar brasileira, no ano de 1973. Aí, a escritora descreve a realidade do regime militar sob o olhar distinto de três jovens uma toxicodependente, uma subversiva e uma burguesa, cada qual vivendo o instante que as rodeia com percepções distintas.
Critérios questionados
Os critérios de atribuição do Prémio Camões - que, desde 1997, não distingue um autor fora do eixo Portugal/Brasil - voltaram, entretanto, a ser questionados. Em causa está o facto de nomes cimeiros da literatura africana de língua portuguesa, cujo exemplo mais paradigmático será Mia Couto, não terem sido ainda contemplados com o galardão, instituído em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil com o objectivo de contribuir para o enriquecimento do património literário em língua portuguesa.
Secretário-geral da União de Escritores Angolanos (UEA), Botelho de Vasconcelos afirmou mesmo que o Prémio Camões "é mais uma questão política do que cultural" e acrescenta que a UEA "nunca foi consultada para apresentar obras de autores angolanos para concorrer ao prémio".
Craveirinha (em 1991) e Pepetela (seis anos depois) são os únicos autores africanos já distinguidos com o Prémio Camões.
* com agência Lusa
AUTORA VEM
A PORTUGAL
EM SETEMBRO
Lygia Fagundes Telles deverá vir a Portugal em Setembro com o objectivo de assistir ao lançamento de novas obras no nosso país. A vinda da autora de "Ciranda de pedra" já estava decidida há vários dias, razão pela qual António Souza Pinto, director da Livros do Brasil, editora que detém os direitos de publicação no nosso país, acredita tratar-se de "uma feliz coincidência". Com seis livros da escritora já editados no mercado português - entre os quais "Antes do baile verde" (1970) e "A estrutura da bola de sabão"(2001) -, a Livros do Brasil planeia aproveitar a visibilidade conferida pelo prémio para investir em novos títulos.
A lista de obras disponíveis só não é maior porque, em 1990, o romance "As horas nuas" viu a sua publicação dificultada por problemas na transposição da ortografia original.
