as histórias tradicionais, o lobo é sempre mau. Na vida real, a imagem prevalece e poucos querem descobri-lo para além das frases feitas. Pedro Alarcão e Anabela Moedas estão do lado das excepções e criaram um projecto de ecoturismo em que procuram partilhar uma paixão que começou por levá-los temporariamente ao Parque Peneda-Gerês, mas acabou por "prendê-los" a Castro Laboreiro, concelho de Melgaço.
Tudo começou no final de 1999, quando os dois jornalistas decidiram acompanhar uma família de lobos com o objectivo de escreverem um livro. Pelo meio criaram o documentário "A vida secreta dos lobos", que passou pela primeira vez na RTP em Fevereiro do ano passado. Depois, em Agosto, começaram as actividades da Ecotura, que procura dar a conhecer o ambiente em que vive o animal mal-amado pela população.
"O lobo é extremamente perseguido, morto das mais diversas formas, como por envenenamento", lamenta Pedro Alarcão. Mudar a mentalidade das pessoas, fazendo ver que ele pode constituir uma fonte de recursos e representar uma mais-valia económica, é um dos objectivos na base do projecto. "Temos tido muita adesão e a mensagem está a começar a passar", acreditam os promotores.
Na descoberta do ambiente da serra, das suas lendas e espécies, dos carvalhais e fragas, dos fojos (antigas armadilhas em pedra), o cavalo é o parceiro privilegiado. Há passeios todo o ano, com diferentes graus de dificuldade, a que se juntam iniciativas sazonais. O Eco-safari Fotográfico e as Noites de Verão ao Luar têm sido as mais procuradas. Tanto que a segunda iniciativa vai ser reeditada em Setembro, dos dias 4 a 9, apesar de não estar inicialmente previsto. É uma acção com componente cultural vincada, que se realiza das 19 à 1 hora, enquanto os safaris são mais estritamente ambientais, podendo incluir duas ou uma refeição. Piqueniques de montanha, com ementas de outros tempos, são privilegiados nos programas.
Os preços, admite Pedro Alarcão, não são propriamente baixos. Um eco-safari vai dos 35 aos 45 euros. As Noites ao Luar custam 35, um dia a cavalo chega aos 70. "Não são actividades de massas", explica. "Tem de ser um turismo sustentável, em que não haja qualquer tipo de pressão. E as actividades têm acompanhamento personalizado. Os participantes estão sempre a receber informação".
De certa forma, o projecto está a terminar um período experimental, em que tem sido afinado. "Também aprendemos com quem nos visita", salienta Pedro Alarcão. Em Setembro arrancam as obras para um centro de ecoturismo, com centro de interpretação incluído, e só depois será dado o salto para o mercado internacional.
Saudades de Lisboa é algo que Pedro Alarcão não sente. Desde que tenha ADSL - "essencial hoje em dia" -, dispensa a confusão. Sente-se em casa, onde pode ser brindado com "o som mais espectacular da natureza" - o uivo do lobo. Inês Cardoso
