O ecologista que afrontou o lóbi das celuloses, fundou associações e denunciou as autarquias que faziam podas destrutivas às árvores dos seus jardins está de pantufas a olhar o balanço do movimento ambientalista português. Provavelmente não as vai descalçar. "As associações não podem ir a todas", conclui Serafim Riem, fundador e ex-dirigente da "Quercus" e do FAPAS, entre outras organizações, retirado há vários anos, por cansaço e cepticismo, da militância ambiental, mas realizado com a sua empresa de arboricultura.
"Pela primeira vez, tenho a sorte de não separar o Ambiente do trabalho". Economista de formação e profissão (começou por criar um gabinete de contabilidade, que ainda possui), passou duas décadas a correr entre o escritório, os espaços naturais, as acções de protesto, as reuniões, os debates e as iniciativas de pedagogia ambiental nas escolas.
Militante de Extrema-Esquerda, na Liga Comunista Internacionalista (LCI), entre 1974 e 78, nos tempos do contágio político entre os universitários ("todos tínhamos partido, andávamos de emblema ao peito!"), nunca mais enfileirou num partido. Abraçou há mais de um quarto de século a causa ambiental. Entre outras, foi fundador e dirigente do Grupo Ecológico Terra Viva; esteve no Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem; fundou e dirigiu a "Quercus"; e criou, em ruptura com esta, o FAPAS. Esteve no combate contra a central nuclear de Sayago; empenhou-se na defesa das aves de rapina; liderou a luta contra a eucaliptação (acorrentou-se a uma máquina de rasto na Serra da Aboboreira, dirigiu centenas de ambientalistas e populares que arrancaram milhares de eucaliptos em Valpaços e sofreram uma carga da GNR, enfrentou horas de debates com técnicos das celuloses); dinamizou a denúncia do cativeiro e do comércio ilegal de aves selvagens; animou em escolas a construção de bosquetes educativos; "plantou" nichos artificiais para cegonhas e andorinhas. E, todavia?
Aos 52 anos, está retirado das lides (é "apenas" vogal do Conselho Fiscal do FAPAS). Por cansaço de tantos anos de militância. E por desilusão com o movimento, que "não deixou nada que se veja". "Não há batalhas ganhas, porque a Economia tem mais força do que as lutas", desabafa. Obteve entretanto um mestrado em Gestão e Conservação de Fauna Selvagem Euro-mediterrânica e uma pós-graduação em Arboricultura Urbana. E está satisfeito com a sua vida. Admite voltar ao activismo ambiental se surgir "uma causa muito concreta". Por exemplo? "O regresso à causa da defesa do lince da Malcata, mas com um movimento ibérico, que confronte os dois governos".
Fica portanto nas pantufas? "Um dia vai surgir uma provocação que me obrigará a tirá-las". E nisto lembra-se que tem por cumprir uma promessa a entrega ao Parque Nacional da Peneda-Gerês de dez mil teixos (árvore rara) que não conseguiu produzir. Alfredo Maia
Serafim Riem
Ex-dirigente
do movimento
ambientalista
