Arte do Dia

A poesia não vive sem março. É fácil perceber porquê

A poesia não vive sem março. É fácil perceber porquê

Seja pelo lento mas inigualável desabrochar da primavera ou apenas pela comemoração do seu dia mundial a 21, março é o mês da poesia. Aqui ficam cinco razões pelas quais não há que duvidar desta suspeita.

Qual o escritor que nunca sonhou ser acometido de uma inspiração súbita que o leve a escrever de jato, com uma força e verve tais capazes de dispensarem até a mais sedutora das musas literárias?

Para Fernando Pessoa, esse dia chegou a 8 de março de 1914. A epifania só lhe deu tempo para se abeirar de uma cómoda alta e escrever, de um jato, três criações marcantes: "Guardador de rebanhos", "Chuva oblíqua" e um esboço de "Ode triunfal".

Mais do que os poemas em si, o clarão inspirativo revelou-lhe a aventura heteronímica, sem a qual Pessoa não seria o autor universal que é.

Regressar a este poema altamente sensitivo, no qual Alberto Caeiro professa o desejo de experienciar sem freios tudo o que o rodeia, é, pois a melhor forma de iniciar este périplo demonstrativo das virtudes poéticas de março:

IX - Sou um guardador de rebanhos.

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

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Mário Viegas foi um dos muitos declamadores rendido a estes poemas pessoanos:

Mais de quatro décadas depois de Fernando Pessoa, um então jovem autor chamado Eugénio de Andrade plasmava num poema a que deu o título "Entre março e abril" os encantos primaveris sob a forma de flores. Não as mais louvadas e cantadas, dos lilases às rosas, mas as "tímidas" e de "cores difíceis" conhecidas por frésias ou junquilhos:

"Entre março e abril"

Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?
O cheiro puro de só da terra!
não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, doces flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel
abertas no canteiro junto ao tanque
Frésias,
ó pura memória
de ter cantado -
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
- que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?


Se o poema de Eugénio contém um fundo trágico - a efemeridade da vida natural -, há também abundantes exemplos de como ela pode ser vibrante, qualquer que seja a sua duração. Poeta da Natureza por excelência, o britânico William Wordsworth legou-nos escritos pulsantes de vida que abraçam a ação em detrimento do lado puramente reflexivo. Escrito algures neste mês, o seguinte poema exige ser lido e escutado no original para que nada da sua beleza se perca:

"Written in March"

The cock is crowing,
The stream is flowing,
The small birds twitter,
The lake doth glitter
The green field sleeps in the sun;
The oldest and youngest
Are at work with the strongest;
The cattle are grazing,
Their heads never raising;
There are forty feeding like one!

Like an army defeated
The snow hath retreated,
And now doth fare ill
On the top of the bare hill;
The plowboy is whooping-anon-anon:
There's joy in the mountains;
There's life in the fountains;
Small clouds are sailing,
Blue sky prevailing;
The rain is over and gone!"

Há uma dúzia de anos, neste mesmo mês, era apresentado "Escritura y alquimia", um documentário sobre o poeta espanhol Antonio Gamoneda que nos aclara o seu universo literário, estético e humano.

"O poema necessita da leitura para ser algo significativamente vivo", diz a dada altura o autor de "Oração fria", que completa 90 anos a 30 de maio:

Se ainda duvida da ligação íntima entre março e a poesia, aqui fica um argumento irrefutável para mudar de ideias. Em 1974, Tom Jobim escrevia e gravava, com Elis Regina ao seu lado, o tema "Águas de março".

Em cada palavra, em cada acorde, "é a vida, é o sol, é a noite, é a morte, é o laço, é o anzol" que espreita a cada instante, obrigando-nos (ou pelo menos a tentar fazê-lo) a repensar certezas:

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