Cinema

A "doença do riso" e a dieta louca: como Joaquin Phoenix se tornou o Joker

A "doença do riso" e a dieta louca: como Joaquin Phoenix se tornou o Joker

A crítica parece reunir consenso em relação a Joker, o novo filme sobre o vilão de Gotham City, realizado por Todd Phillips e protagonizado pelo aclamado Joaquin Phoenix, para quem já se pede o Oscar. Mas como é que o ator norte-americano de 44 anos se transformou no palhaço psicopata que já é muito mais do que um rival de Batman? Atenção, este texto tem spoilers.

O sucesso do filme, que estreou em Portugal na passada quinta-feira, é inegável: Joker já gerou cerca de 900 mil euros de receita bruta no nosso país e é, para já, a terceira melhor estreia do ano, segundo dados dos cinemas NOS. Mais de 155 mil portugueses viram o filme no fim de semana de estreia, o que resulta na melhor abertura de sempre de um filme do universo DC, à frente do Esquadrão Suicida.

Nos EUA, Joker arrecadou 93,5 milhões de dólares (cerca de 85 milhões de euros), segundo dados oficiais citados pela revista "Variety", fazendo deste o filme com maior receita de bilheteira nas estreias de outubro e o quarto maior de sempre entre os classificados como "Restricted" (maiores de 18 anos), apenas atrás de "Deadpool", "Deadpool 2" e "It". A nível internacional, conseguiu 140 milhões de dólares (127 milhões de euros) em vendas nas bilheteiras de 73 mercados internacionais.

Mas a que se deve, afinal, este sucesso? Há quem aponte à narrativa, que foge à habitual receita dos filmes de super-heróis e explora uma versão mais crua e humana (ou desumana) da história de Arthur Fleck; há quem associe o êxito do filme à brilhante representação de Joaquin Phoenix; e há quem considere que é uma junção das duas partes: a atuação perfeita para um contexto específico da personagem.

Para se transformar em Joker e, antes disso, no comediante Arthur Fleck - que falha redondamente nas constantes tentativas de fazer os outros rir e é rejeitado por uma sociedade que ignora os mais vulneráveis -, o ator de 44 anos, protagonista em "Her" (2013) e vilão em "Gladiador" (2000), teve de reinventar-se não só física como psicologicamente.

A doença das gargalhadas inconvenientes

Uma das características de Arthur é o transtorno que lhe provoca ataques de riso incontroláveis, mesmo em momentos impróprios, como acontece durante o assédio de um grupo de homens a uma mulher no metro de Gotham City.

Os responsáveis pelo filme descrevem o riso do vilão como algo sombrio e doloroso e é isso que o ator transmite ao espectador, constrangido por não saber se há de acompanhar a gargalhada ou sentir pena da dificuldade da personagem em controlar-se. Joaquin Phoenix confessou, em entrevistas, que se inspirou em vídeos de pessoas que sofrem desses ataques de riso.

O ator revelou ainda que estudou uma doente que, rindo compulsivamente, agarrava o pescoço com dor, como se estivesse a afogar-se. Um dos objetivos do filme é precisamente passar essa angústia para o outro lado do ecrã, mostrando o sofrimento associado às famosas gargalhadas de Joker, mas também a razão para que essas surjam nos momentos mais estranhos.

No filme, Arthur tem sempre consigo um cartão em que explica o seu transtorno, como precaução que os médicos recomendam a quem sofre da doença, para que as pessoas à sua volta percebam que não consegue controlar o riso. Isto porque, durante as gargalhadas inconvenientes, a personagem não consegue articular uma única palavra. Ter um diagnóstico é essencial para encontrar o tratamento, algo que o vilão não tem.

O jornal "El País" tentou encontrar a resposta sobre a origem do transtorno, descartando, desde logo, as hipóteses de intoxicação por álcool ou drogas. De fora ficou também a possibilidade de se tratar da síndrome de Angelman, um distúrbio genético que causa incapacidade e cujos pacientes tendem a rir com frequência, mas apenas por terem geralmente uma personalidade feliz.

A paralisia pseudobulbar também não se encaixa, mesmo podendo coincidir em alguns sintomas da personagem. Francisco Javier López, coordenador do grupo de estudos sobre epilepsia da Sociedade Espanhola de Neurologia (SEN), explica àquele jornal que a doença "geralmente ocorre mais em pacientes que estão a começar a sofrer sintomas de demência. O riso inadequado seria uma reação ao aparecimento de comprometimento cognitivo, como Parkinson, esclerose lateral amiotrófica (ELA) ou outras patologias neurodegenerativas".

Então, diz o "El País", tudo indica que Joker sofre de "epilepsia gelástica", uma doença cujos sintomas (risos incontroláveis ​​sem motivo aparente) podem encaixar-se perfeitamente na personagem, uma vez que ocorre geralmente em pessoas mais jovens, ao contrário do que acontece nos casos de paralisia pseudobulbar.

A dieta que quase enlouqueceu o ator

Joaquin Phoenix passou oito meses a criar Arthur Fleck e o Joker. Além de ter estudado diferentes transtornos de personalidade e praticado o riso vezes sem conta, o ator precisou também de emagrecer, tendo começado a dieta no quarto mês de preparação da personagem, conta o "El País".

Joaquin emagreceu um total de 23 quilos e começaram a surgir rumores de que a dieta passava por comer apenas uma maçã por dia. Uma falsa notícia que o próprio ator desmentiu. "Não me alimentava só com uma maçã por dia. Também comia, entre outras coisas, alface, vagem de feijão verde ao vapor...", revelou à publicação norte-americana Access. Phoenix fez dieta durante quatro meses para perder os 23 quilos e afirmou que esteve sempre sob supervisão médica. "Trabalhei com um médico de confiança que me orientava e se encarregava de controlar todo o processo".

O ator reconheceu, no entanto, que limitar de tal forma a alimentação fez com que durante os meses de filmagem tivesse a sensação de que perdia o controlo dos seus atos. "Comer pouco afetou-me psicologicamente. Começas a enlouquecer quando perdes essa quantidade de peso em tão pouco tempo", confessou.

Joaquin teve lutar contra a sua paixão pelos pretzels (um tipo de pão muito popular na Alemanha, mas também nos EUA) durante toda a filmagem. "Todd Phillips trazia sempre pretzels, que adoro, para o estúdio e o escritório dele estava cheio. Ele adora-os e levava para as outras pessoas. Foi realmente difícil conter a vontade de comê-los", recordou o ator, que no início imaginava o Joker como um indivíduo mais forte e teve dúvidas sobre a necessidade de perder tanto peso.

O artista norte-americano não acreditava que o facto de se submeter a uma dieta extrema acabaria por ser benéfico para a interpretação. "Ao estar tão magro senti que era capaz de mover o meu corpo de formas que nunca pude. E acho que isso realmente deu personalidade", disse na entrevista à Access. "Pensava que com a perda de peso iria sentir insatisfação, fome, fraqueza e uma espécie de vulnerabilidade. Mas não imaginei a sensação de fluidez que obtive".