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A esperança já não mora aqui

A esperança já não mora aqui

A luta pela sobrevivência numa sociedade privada de valores e esperança domina o novo livro de Gonçalo M. Tavares, "O osso do meio". Um capítulo mais numa obra que há duas décadas prossegue a sua sanha exploradora dos limites do humano e do absurdo.

Como Milan Kundera o fez no título de um dos seus livros mais conhecidos, também Gonçalo M. Tavares poderia escrever que "a vida não é aqui". Obra tão dura quanto desesperançada, "O osso do meio" retoma a marcante série a que deu o nome de "O Reino" (com as bem vincadas capas negras, marca que agora se perdeu).

E embora este novo livro partilhe com "Aprender a rezar na era da técnica" ou "A máquina de Joseph Walser", também da mesma coleção, algumas ambiências e até personagens, estamos, na verdade, no interior de um outro compartimento que faz parte do inacreditavelmente vasto edifício literário que Tavares tem vindo a construir, com tanto de labor como de génio, ao longo das últimas duas décadas.

Com "O osso do meio", o escritor prossegue (e aprofunda) o que podemos ver como uma espécie de escavação antropológica destinada a avaliar o que resta de humano numa Humanidade em adiantado estado de decomposição. Quando a sobrevivência tende a sobrepor-se a quaisquer imperativos éticos, o que sucede à civilização?

A resposta (ainda que não sob uma forma demasiado afirmativa, felizmente) encontramo-la ao longo desta intrigante e desafiadora narrativa, dividida em quatro partes, cada qual dedicada a uma personagem dominante: Kahnnak, Albert Mulder, Maria Llurbai, Vassliss Rânia, seres "(quase) felizes", se a felicidade assentasse antes de mais na busca insaciável das necessidades básicas de cada indivíduo.

"Em situações-limite agarramo-nos a cada pormenor do corpo como se fôssemos cobertos de ouro;ávidos de organismo como antes de dinheiro. Ninguém exige morrer risco, todos exigem não morrer", lê-se já a meio da narrativa, em alusão a Kahnak, um homem cuja carnalidade extrema o leva a agir em autêntica roda livre, sem medo algum das consequências.

Num cenário desolado e isento de regras ou leis como o que nos é descrito no livro, a salvação individual é o que mais importa. Essa divisa torna-se de uso obrigatório numa sociedade de contornos brutalistas na qual "um talho tem o cheiro verdadeiro do Mundo".

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Por isso, quando "a terra demonstra possuir o cio próprio dos bichos" e "a animalidade é completa e está à solta", é inútil procurar a piedade ou misericórdia onde ambas não existem. Trata-se apenas de matar para não ser morto.

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