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Está em exibição o filme "A Minha Vida Como JT Leroy", que aborda um dos grandes logros literários do início do século. O JN viveu-o por dentro e recorda-lhe toda a história.
Não há ninguém que não goste de uma boa partida, mas esta tomou proporções épicas. Há um filme de ficção em cartaz no Cinema Trindade, no Porto, que nos conta o que se passou - "A Minha Vida Como JT Leroy", com Kirsten Stewart no papel do ou da protagonista. O leitor já vai perceber a dúvida.
Antes do filme de ficção agora em exibição já foi editado um livro, "Girl Boy Girl: How I Became JT Leroy", realizado um documentário, "Author: The JT Leroy Story" e publicados inúmeros artigos. Mas quando tudo aconteceu, toda a gente foi enganada. Não há que ter vergonha, porque a história é espetacular e já foi descrita como "a maior burla literária do nosso tempo".
Tudo começou no início da década de 2000, quando Laura Albert, então com 40 anos, antiga rocker punk e operadora telefónica de linhas de sexo, publicou o romance "Sarah" e a coletânea de contos "The Heart Is Deceiftul Above All Things", sob o pseudónimo de JT Leroy, o que deixava desde logo em aberto qual o género do "autor". Para o efeito, foi mesmo criada uma biografia oficial de JT Leroy, que seria um jovem gay, VIH positivo, sobrevivente de abusos desde infância, filho de uma trabalhadora do sexo do West Virginia, especializada em camionistas, antes dele próprio se tornar prostituto.
O que Laura Albert nunca imaginou foi que os seus livros, fruto de um "incentivo" de uma assistente social para JT Leroy os escrever, e recheados, numa escrita de contornos góticos, de pobreza social, dependência de drogas e abusos sexuais, se tornassem best-sellers e objetos de culto.
A pressão era enorme e tornou-se necessário "produzir" um JT Leroy, para apresentar os livros, dar entrevistas, no fundo participar em todas as ações de promoção junto da imprensa e dos muitos milhares de fãs que a "sua" obra começara a granjear, sobretudo nos Estados Unidos.
A solução estava praticamente dentro de casa. Savannah Knoop, atriz e modelo, meia-irmã de Geoffrey Knopp, à época marido de Laura Albert, criada com eles em São Francisco, tinha a técnica e a figura andrógina perfeitas para o "papel". E foi assim que, durante seis anos, J.T. Leroy existiu "de verdade", por debaixo de uma figura encenada, quase sempre de chapéu, sobre uma cabeleira loura e de grandes óculos escuros tapando-lhe boa parte do rosto.
Mas não eram apenas leitores anónimos que se interessavam pelas personagens de JT Leroy e pelo seu "percurso". O fenómeno foi capaz de seduzir gente como Courtney Love, artista, atriz e viúva de Kurt Cobain, a atriz Winona Ryder, ou os músicos Tom Waits e Bono, muitos deles vistos muito alegres em fotografias com JT Leroy. Madonna sonhava mesmo converter JT.
Leroy à Kabbalah, o cineasta independente Gus van Sant creditou-o como Produtor Associado do seu filme "Elephant", que venceria a Palma de Ouro em Cannes, numa rara dupla com o Prémio de Realização. Os Garbage escreveram o hit "Cherry Lips", com base na "personagem", com quem Liv Tyler, dizia-se, passava horas ao telefone!
É em 2004 que o JN entra na história.
Asia Argento, JT Leroy e Cannes
Em 2004, a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes anuncia, na sua seleção oficial, o filme "The Heart Is Deceiftul Above All Things", baseado no livro homónimo de JT Leroy e com realização de Asia Argento. Filha do mítico Dario Argento, além de uma carreira de atriz desde muito nova, iniciada pelo pai, Asia já dirigira vários filmes, entre os quais a prometedora longa-metragem "Scarlet Diva".
Para apimentar mais a história, diga-se que Asia Argento surgiu na estreia mundial do filme, ocorrida a 15 de maio desse ano de 2004, ao lado de Harvey Weinstein, então um dos homens mais poderosos do cinema americano e que a atriz e realizadora haveria de acusar, recentemente, numa cerimónia de encerramento de Cannes, de a ter abusado durante uma das edições do festival.
Mas há mais. O jovem protagonista do filme, Jimmy Bennett, acusou em 2018 Asia Argento de ter abusado dele sexualmente quando ainda era menor. Argento devolveu a acusação. Jimmy Bennett tinha oito anos quando o filme estreou!
Além disso, e o filme agora em cartaz sublinha-o, Asia Argento e "JT Leroy" tiveram à época um envolvimento sexual. Por muito que Asia tenha dito mais tarde que se beijaram, que os pequenos seios lhe pareciam mais de um rapaz que tivera feito uma operação e que nunca chegaram a uma fase em que percebesse que o sexo de JT Leroy era feminino, é difícil acreditar que a realizadora não soubesse que, tirado o chapéu, a peruca e os óculos, JT Leroy não fosse aliás Savannah Knoop.
No dia a seguir à estreia mundial, o jornalista do JN em Cannes dirigiu-se ao All Suites Hotel, a escassos metros da Croisette, para entrevistar Asia Argento e JT Leroy junto à piscina.
As entrevistas do filme foram organizadas pela agência PR Contact, na altura uma das mais ativas em Cannes e que tinha como um dos proprietários o brasileiro Ronaldo Mourão.
A companhia foi entretanto desativada e Ronaldo Mourão retomou uma carreira de ator. Diretamente do seu apartamento no Rio de Janeiro, onde se encontra em confinamento há dois meses, Ronaldo Mourão recorda ao JN esses dias. "A Asia Argento chegou acompanhada do JT Leroy. Mas na comitiva vinham também o que era indicado como o namorado dele, a namorada do namorado - era um trio - e uma criança que era filha dos três!"
Ronaldo Mourão diz-nos ainda que "com JT Leroy foi bem tranquilo, quase não falava, tudo passava pelo namorado e namorada dele, que descobrimos depois ser a verdadeira autora do livro". Sem que hoje seja possível confirmá-lo, é pois mais do que provável que se tratasse da própria Laura Albert e do marido e meio-irmão de Savannah, sempre por perto para garantir que o golpe não caísse por terra.
O autor destas linhas recorda ter trocado impressões com outros colegas que também entrevistaram Asia Argento e JT Leroy, sempre um ao lado do outro, porque parecia realmente haver algo de errado. Ronaldo Mourão diz-nos que um colega da equipa desconfiou da figura de JT Leroy, que achava demasiado feminina para ser um rapaz.
A entrevista, cerca de vinte minutos de conversa, ficou inédita até hoje, porque o filme, bastante bizarro e irregular, nunca teve estreia em Portugal. Mas é verdade que JT Leroy quase não falava. Aqui ficam algumas das suas poucas palavras, guardadas desde então em cassete áudio: "As pessoas que têm falado do livro têm ajudado muitas outras pessoas a compreendê-lo e a descobrir a história. A Asia leu o livro e identificou-se com ele. É o melhor que eu podia esperar. Estou tão contente por termos alargado a nossa família. Acho que o filme toca um tema universal. É tão verdadeiro e emocional."
A "marosca" foi desmascarada em janeiro de 2006, num artigo do "The New York Times" e muita gente se apressou a dizer que nada sabia do assunto ou que nunca desconfiara de nada de anormal. Laura Albert, que entretanto se divorciou do marido e meio-irmão de Savannah Kloop, esteve envolvida num caso judicial, resolvido fora do tribunal, por ter assinado um contrato sob o nome de "JT Leroy" para a adaptação ao cinema do outro livro por "ele" escrito, "Sarah".
Entretanto, Laura Albert escreveu mais algumas outras obras com outros pseudónimos, assinou o argumento de algumas curtas-metragens e estará a preparar um livro autobiográfico. Esteve ligada ao documentário "Author: The JT Leroy Story", ao contrário do filme agora em exibição, que se baseia-se no livro de Savannah Kloop, "Girl Boy Girl: How I Became JT Leroy".
No filme, escrito e realizado por Justin Kelly, além da acertada escolha de Kirsten Stewart como JT Leroy, e de uma aparição de Courtney Love, Laura Dern interpreta o papel de Laura Albert, mas Asia Argento, que tem tentado desmarcar-se de toda a história, é transformada na figura ficcional de uma realizadora francesa, representada por Diane Kruger. O filme aí está. Mas, desta vez, a realidade foi muito mais espetacular que a ficção.
