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A viagem é um estado mental

A viagem é um estado mental

É um dos livros mais esquecidos de Agustina Bessa-Luís, mas nem por isso é isento de mérito: quase duas décadas depois da edição original, a obra "As estações da vida" foi reeditado pela Relógio D'Água.

Para nos aquilatarmos do verdadeiro talento de um escritor, não podemos ir apenas em busca dos seus textos mais lidos e elogiados ou dos livros que lhes granjearam prémios, honrarias e leitores. É nas suas criações ditas obscuras ou secundárias que encontramos por vezes não só a verdadeira dimensão do seu compromisso para com a arte da escrita, mas também a capacidade de estarem à altura do seu próprio nome.

Neste particular, Agustina Bessa-Luís é um caso à parte na nossa literatura, pelo modo como soube incutir uma marca autoral inextricável nos seus escritos, fossem os romances mais conhecidos ou também os ensaios, monografias, crónicas e ensaios.

Longe de ser uma pessoana convicta, a autora de "Um cão que sonha" parece ter absorvido como poucas uma das odes mais célebres de Ricardo Reis: "Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive".

Lançado em 2002 e reeditado recentemente pela Relógio D"Água, "As estações da vida" não é o primeiro livro de Agustina em que pensamos quando somos desafiados a escolher uma único título da sua vastíssima bibliografia.

E, todavia, apesar da sua brevidade e aparente insignificância no contexto da sua obra, este é um livro admirável. Embora seja apresentado pela própria como um livro "sobre os azulejos que decoram um grande número de estações de caminho de ferro", é, na realidade, muito mais do que isso - os comboios são apenas uma metáfora da vida, no que ela contém de mais estimulante: os cruzamentos de experiências, as possibilidades infinitas que cada embarque encerra, as paisagens extasiantes que despertam sentimentos há muito adormecidos.

Neste curto relato que se desdobra sempre em novas camadas, cada qual mais absorvente do que a anterior, o olhar arguto de Agustina detém-se sobretudo na diversidade humana, nas gentes de todas as classes que acorrem às estações na sua demanda pelo Mundo.

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É, acima de tudo, a romancista que espreita por estas impressões soltas mas nunca desfasadas entre si, porque, como confidencia já na reta final de "As estações da vida", "quem tem tino para fazer romances e assaltos aos comboios não gosta de deixar fios soltos".

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